quinta-feira, 31 de maio de 2012

Conto Curioso

Há muitos e muitos anos, numa terra distante, havia um vilarejo esquecido, com alguns mistérios adormecidos e muitas histórias não contadas. Por lá, poucos forasteiros passavam; não fazia parte da rota de mercado, estava mais para rota de fuga – nem sempre foi assim. Entre os habitantes desse lugar remoto, havia dois irmãos queridos por seus conterrâneos, dois jovens que tornavam a vida naquele lugar mais animada e agradável. Ambos eram filhos dedicados, que ajudavam seu pai nos afazeres do campo, irmãos abnegados, que estavam sempre dispostos a cuidar dos menores, protegê-los. Nessa família, havia, ao total, cinco filhos, os dois mais velhos, uma menina – a do meio –, um que tardiamente iniciava a falar, outro que ainda era de colo – um bebê. Assim, esses menores estavam sempre com a mãe. E a filha, Dora, a qual fazia questão de ajudar a cuidá-los, contribuía com a mãe nos afazeres domésticos.
Cris era o irmão extrovertido, dinâmico. Sabia sempre de tudo sobre todos. À época da morte do avô materno, já há algum tempo, Cris fora sozinho e escondido à casa do falecido. Enquanto todos se preocupavam em providenciar o velório, ele inspecionava cada canto da casa. Abriu cada porta, levantou cada colchão. No quarto do avô, ao abrir uma das portas do roupeiro, encontrou um baú. Dentro do baú, encontrou uma capa. Nunca a tinha visto, sobre ela seu avô nunca havia falado: era uma capa secreta. Cris olhou entusiasmado para aquilo e, desconfiado, se perguntava: “por que vovô a guarda tão bem? para que a usa?”. Foi até o espelho para ver como ficaria com a tal capa. Assustou-se. Espantadamente se deu conta: sumira. Aquela era uma capa de invisibilidade. Levou-a embora. O que ele demoraria a saber é que sua avó dera falta da capa.
Rui era o irmão introvertido, distraído. Seus pensamentos eram sempre distantes. Mas ele escrevia bons textos e as pessoas da vila gostavam muito de lê-los. Rui considerava sua vida sem graça, esse era o motivo de ele sempre imaginar estar em outros lugares e escrevia sobre isso. Por vezes ele andava em reinos distantes, salvando donzelas indefesas de bruxas malévolas; outras vezes era o cavaleiro destemido que acabava com o inimigo mais forte em batalhas sangrentas, recebendo a aprovação de todos, tornando-se o mais admirado pelo rei.  Mas, ultimamente, ele não tinha vontade de escrever, não conseguia sair de seu mundo, do qual ele não gostava, não conseguia imaginar algo que lhe fizesse bem; seus dragões estavam mortos, todas as princesas tinham envelhecido. O único lugar em que Rui imaginava estar era num buraco negro bem fundo, num desfiladeiro sem fim, onde ele caía e caía e se perdia para sempre. Ele não queria escrever sobre isso, ele não queria escrever sobre nada. Ele queria ir embora e nunca mais voltar.
Quando Cris percebeu a tristeza de seu irmão, sabendo que Rui gostava de uma aventura, como ele, resolveu convidá-lo a espionar um morador da vila – Cris acreditava que com a capa de invisibilidade eles estariam seguros. Esse morador vivia recluso, solitário, e era sempre motivo de conversa entre os habitantes do local. A esperança de Cris era de que Rui se empolgasse com o prazer que só uma façanha inesperada pode proporcionar, e voltasse a escrever. Rui aceitou a proposta, se animou com o perigo – “por sorte o homem misterioso teria algum segredo que fizesse valer a pena arriscar”. Não acreditou quando vira a capa de invisibilidade e reclamou a Cris por não ter lhe falado sobre ela antes.
Escondidos embaixo da capa, tarde da noite, enquanto todos dormiam, foram à casa do enigmático vizinho. A porta não estava trancada, por isso entraram facilmente. Passaram pela cozinha e seguiram pela sala: procuravam algo diferente, algo que pudesse comprovar que aquele homem acabara naquela vila para fugir de uma realidade que ele não contara para ninguém porque a queria esquecer, que ele tinha algum segredo a esconder, comprovando a desconfiança de todos – quem sabe um assassino sanguinário, um ladrão ordinário? “Ao certo um falsário”. A sala dava para um corredor extenso cheio de portas, as quais os irmãos acreditavam serem dos quartos. Caminharam lenta e cuidadosamente por esse corredor, todas as portas estavam fechadas e eles não as abriam porque uma daquelas ao certo era a porta do quarto do homem, não queriam acordá-lo. No final do corredor, na extremidade oposta à sala, havia uma porta entreaberta e foi para lá que eles se dirigiram. Espiaram para certificar se o dono da casa não estava ali, como não havia ninguém, entraram. Não acreditaram no que viram: vidros de todos os tamanhos com líquidos de variadas cores e procedências, conhecidos ingredientes de poções mágicas: lágrima de sereia, pó de chifre de unicórnio, coração de dragão desidratado e outros. Esse homem era um bruxo! E, pela quantidade de material de magia que ele tinha (alguns muito difíceis de se conseguir, raríssimos), pode-se afirmar: um bruxo muito poderoso! Observaram cada detalhe, exploraram bem o ambiente. Empolgados com a descoberta sobre o vizinho e com a quantidade de coisas que eles sequer haviam imaginado ter nas mãos, descuidaram-se da presença do homem ali na casa – queriam ver tudo, ler cada receita, saber cada antídoto. Cris, deixou a capa de invisibilidade com Rui e começou a caminhar livremente naquele aposento, analisando tudo o quanto podia. Ao encontrar um ingrediente que sempre duvidou existir, deu um grito para Rui, que estava a certa distância, lendo um manual de encantamentos amorosos:
― Não acredito! Cinza de fênix! Você tem que ver isso!
Rui percebeu o tom alto da voz do irmão e se assustou, aquilo poderia ter acordado o bruxo. Assim que se deu conta disso, ouviu o ranger da porta do quarto ao lado, o homem estava a caminho. Cris estremeceu de pavor e deixou escapar de sua mão o vidro com as cinzas, que se espatifou no chão. Rui então correu até seu irmão e cobriu-os com a capa. No instante seguinte o homem estava ali, em frente a eles. Se não fosse a capa, teriam sido certamente flagrados. O bruxo não os via, mas sentia que havia algo errado. Olhava para todos os lados desconfiadamente, até que viu as cinzas de fênix espalhadas no chão. Agora tinha certeza, alguém esteve ali, alguém sabia seu segredo. Os dois irmãos, apavorados, esperaram o homem sair dali. Acreditaram que ele havia voltado para seu quarto e foram embora, apreensivos. O bruxo que, diferente do que eles pensavam, não voltara a dormir, observava, escondido, as pegadas que se faziam na relva enquanto os irmãos afastavam-se. O bruxo os seguiu sorrateiramente até descobrir, por fim, quem estivera em sua casa. Naquela mesma noite sequestrou Dora. Sabia do carinho que os dois tinham pela menina, sabia que através dela os atrairia para onde desejasse, sabia que eles não arriscariam a vida da irmã, que seriam discretos para evitar que qualquer mal acontecesse a ela, que não comentariam com ninguém o que ocorrera, nem seus anseios. Então ele poderia acabar com esses bisbilhoteiros sem levantar suspeitas. Vingar-se. Levou Dora para sua casa. Tinha certeza de que os meninos saberiam onde procurá-la quando dessem sua falta.
Amanheceu e, como de costume, a mãe foi para a cozinha preparar o café da manhã para a família. O pai se levantou, passou no quarto dos filhos maiores para acordá-los, pois os três seguiriam para a lavoura, e, quando se dirigiu para o quarto dos menores, não vendo Dora, voltou-se calmamente para a mulher, perguntando da menina. A mulher, assustada, deixou seus afazeres e seguiu à procura da filha dentro de casa. Já estava desesperada, gritando pela filha: “Dora! Dora! Meu Deus, onde essa menina se meteu?”. Foi então que os dois irmãos se olharam, olhar aterrorizado, corpo paralisado. Naquele momento, ambos entenderam-se perfeitamente sem dizer uma palavra: “Só há um lugar onde Dora pode estar e só nós podemos resolver”. Não queriam contar os fatos a seus pais. Não queriam que eles também corressem perigo, como Dora, por causa de sua atitude. Eles conversariam com o bruxo, pediriam desculpas, prometeriam manter segredo; ele haveria de perdoá-los.
Para ganhar tempo, Cris e Rui disseram aos pais que Dora havia falado, no dia anterior, que acordaria bem cedo para colher flores no campo e que com certeza ela estaria bem. Os pais ficaram mais calmos após as palavras dos filhos. Estes tomaram café rapidamente e saíram, dizendo que buscariam a irmã e que em breve estariam em casa. Os dois não sabiam, mas, desde que Cris pegara a capa de invisibilidade na casa da avó, ela os vigiava. Sabia que eles tinham sob seu poder algo muito importante e que isso poderia colocá-los em perigo. Os avós dos meninos eram magos poderosos, que, na hierarquia local, tinham posição de destaque, exercendo influência sob os seres da floresta. Na floresta, havia muitos seres mágicos e uma série deles ajudava a mulher a vigiar seus netos, principalmente as fadinhas vagalume: pequenos seres que brilhavam a noite, mas eram imperceptíveis durante o dia.
Essas fadinhas sabiam de tudo que ocorria, não interagiam com os moradores do vilarejo, mas os observavam e levavam todas as informações para a Maga, responsável por cuidar dos seres que ali habitavam, do vilarejo ou não. A Maga sabia do Bruxo e o mantinha sob vigilância extrema. Desde a morte de seu marido ela esperava o momento certo para sua vingança. O Bruxo a menosprezava, não acreditava em seus poderes, considerava que a morte de seu marido fosse o suficiente para amedrontá-la e torná-la submissa; e ela permitia que ele pensasse assim. Na verdade, ela fazia de tudo para que ele a achasse fraca; mas ela estava juntando forças para combatê-lo. Alguns seres da floresta haviam se deixado subjugar pelos poderes do Bruxo; entretanto, a maioria se preparava para a revanche da Maga. Ela soube do que acontecia durante todo o tempo: sabia dos planos do Bruxo de dominar o vilarejo, sabia quando Cris e Rui foram à casa do homem, sabia o que se passava com Dora naquele exato momento. Porém, antes de qualquer atitude, precisava analisar a situação, ponderar cada detalhe, pensar como agir, pois sabia que aquele Bruxo, que agia discretamente, era extremamente malévolo e poderia acabar com a vida, não só de Dora, mas de toda sua família.
Os irmãos haviam pensado melhor e traçado um plano. Deram-se conta de que o Bruxo não era uma pessoa em quem podiam confiar; era perigoso, escorregadio. Já na floresta, em direção à casa do malévolo, se cobriram com a capa de invisibilidade; o plano era tirar Dora da casa do Bruxo sem que ele percebesse e, quando ela estivesse em segurança, dar um fim nele. Na noite anterior, viram que ele tinha um veneno fortíssimo: suor de quimera, e iriam usar esse veneno para matá-lo. Entraram na casa, andaram por todos os cômodos, não viam nem o Bruxo nem Dora, havia alguma coisa errada. Na sala de poções, pegaram o suor de quimera e seguiram à procura da irmã. Foi então que a viram, no aposento particular do Bruxo, amordaçada. Ela estava transtornada, não sabia o que pensar, não entendia. Quando eles começaram a soltá-la, o Bruxo, inesperadamente, tirou a capa deles e colocou em si mesmo: agora eles estavam vulneráveis: no ambiente do outro, sem o ver. Ele faria o que bem entendesse, poderia sumir com os três e ninguém saberia. Soltaram Dora, não sabiam como se livrar do Bruxo, só pensavam em sair dali, mas não conseguiam: a cada porta, cada janela que eles se aproximavam: BOOOOM! – batia-se com força. O Bruxo as fechava sem ser visto, os estava torturando; para eles era o fim, não tinham o que fazer. A menina começou a chorar.
Então surgiu uma figura feminina na única porta que ainda não havia sido fechada. Era a Maga! Com um comando dela, a capa de invisibilidade, que sempre lhe pertencera, deixou o corpo do Bruxo. Cris, Rui e Dora não entendiam como sua avó, um ser tão frágil, de repente se mostrava tão forte. A Maga e o Bruxo iniciaram uma batalha mágica. Feitiços eram jogados de lá para cá e de cá para lá. A Avó-Maga estava quase sem forças, o Bruxo era muito forte. Rui, abraçado em Dora, a protegia para que nada daquilo a atingisse. Cris lembrou-se do suor de quimera que estava em seu bolso; havia lido todo o manual de envenenamento, sabia o que fazer. Jogou o vidro em direção à avó e disse a ela:
― Suor de quimera! Sabe o que fazer?
― Com toda certeza sei!
O olhar do bruxo era de surpresa e desespero. A ponta da varinha da Maga quebrou o vidro do suor de quimera, absorvendo o ingrediente. Imediatamente ela lançou um feitiço mortal no Bruxo. Ele evaporou, morreu.  Acabara aquele pesadelo. A morte do Avô-Marido-Mago havia sido vingada. Dora estava a salvo, os meninos estavam bem. Seres mágicos da floresta aglomeravam-se em frente ao local. Todos queriam ver o Bruxo morto, todos queriam certificar sua derrota. A Maga, indiscutivelmente, era a autoridade máxima. E, naquele instante, tomada de muita emoção, ela disse:
― Não usem seus poderes para seu bel prazer, não usem suas forças em benefício próprio, há algo muito maior. Há muitas forças nesse mundo, nem sempre positivas; cabe a nós optarmos. Quando soube que vocês usaram a capa de invisibilidade para bisbilhotar a vida do Bruxo, me preocupei. Vocês se arriscaram em vão, correram grande perigo sem necessidade. Agora sei que seus corações são bons, mas sofri pela dúvida. Vocês têm muito para dar a esse mundo, mas precisam ter consciência de seus atos e refletir sobre suas decisões.  
Os irmãos ouviram atentamente, se comprometeram a manter os últimos fatos em segredo e a analisar melhor seus atos antes de tomar qualquer atitude; a irmã fez parte disso. Retornaram para casa. Rui nunca mais quis ir embora, era de uma linhagem de magos muito poderosa e por isso encheu sua alma de inspiração. O vilarejo, que tinha a negatividade predominando sobre ele por causa de feitiço lançado pelo bruxo, viu-se livre disso com a morte de quem o lançou e voltou a ser movimentado; todos os comerciantes queriam passar por ali; o lugar voltou a fazer parte da rota de comércio. A paz e a alegria voltaram a dominar. Todos viveram felizes para sempre.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Altos & Baixos

Alguma coisa acontece no universo solidão:
estrela cadente, partículas de desejo
raios incandescentes

Sunrise

Alguma coisa acontece no infinito paixão:
buraco negro, ondas de desencanto
meteoritos perdidos

Sunset

O sol volta a nascer
no infinito finito
sem saber







sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pés sem chão ou chão sem chinelos



Era um fim de tarde chuvoso. Uma tarde de sábado fria. O outono havia começado a dar caras de inverno. As pessoas voltavam a sentir aquele gosto - gostoso - de permanecer em suas casas quentinhas.
Estava no supermercado. Ainda no estacionamento se dera conta de que o lugar estava lotado. Tráfico intenso de veículos. Um esperando o outro sair para aproveitar a vaga. Não querendo ficar distante da porta, não querendo se molhar, esperou no interior de seu carro o melhor lugar que pudera arrumar. Conseguiu. Estacionara, saíra. Foi às compras.
Entrara no mercado olhando para os lados. Não via nenhum jovem, ninguém sozinho, nenhum pretendente a namorado. Distraída, pensava o que mais quereria, o que mais precisaria. Não costumava fazer as compras da casa. Não tinha essa responsabilidade. Ia ao mercado quando tinha vontades supérfluas, caprichos. Fora isso, estava acostumada a abrir os armários e encontrar o que precisava. Primeiro corredor. Dobra a esquina em direção ao centro do mercado. Lá fica a padaria: pães quentes, cucas frescas, manteigas derretidas. O fluxo de gente é pra lá. Estando lá, iniciaria sua pesquisa, sua análise, suas escolhas. Olha e vê, seguindo o mesmo fluxo, pouco à frente, um homem. Um velho. Um homem velho. Devia ter uns sessenta anos. Setenta. Comparando a seu pai... Estranho. Não considera seu pai um velho. Mas esse homem lhe parece velho. É provável que seja um homem velho. Um homem cujos anos passados foram difíceis.
Grisalho, com certa careca, lhe restava pouco cabelo - nas beiradas. No contorno da cabeça ele tinha cabelo, e era comprido. Nem tão comprido. Não batia no ombro, era um pouco mais curto. Não estava limpo, era oleoso e sem corte. Mas penteado. A roupa era limpa. Gasta, desbotada, velha - mas limpa. Era de se espantar, ao menos de se fazer pensar, que aquele homem com tantos paradoxos era ao mesmo tempo tão simples. Ela segue olhando. Olha os pés. O velho homem estava de chinelo. Chinelo de dedo, de borracha, estilo havaianas; mas não era havaianas  - não era de marca. Ele não poderia comprar chinelos de marca. Com aquele tempo, aquele frio, aquele velho de chinelo de dedo no mercado... Olha com mais atenção, já com pena daquele moribundo, e não pode acreditar no que vê. O chinelo do homem não era velho, era pior; era gasto. As solas de ambos os pés do chinelo eram gastas para dentro. E, ao observar ainda melhor, quando o pobre velho dera um passo à frente, vê o que não acredita ver. O chinelo não era só barato, não era só velho, não era só gasto. Não! Era furado. Não um furo feito num momento, por algum descuido qualquer ou acidente. Era um furo feito pela ação do tempo. O calcanhar do pé esquerdo do chinelo do velho não existia. De tão gasto, havia um rombo. A sola do calcanhar do próprio pé do velho estava fazendo as vezes de chinelo. O homem não era só velho, era gasto!
Desnorteada. Perde-se por alguns segundos. Nunca, em hipótese alguma, pensara passar por isso. Nunca imaginara ver tal cena nesse que é o melhor mercado de sua cidade. Num mercado de subúrbio? Talvez. Mas nesse nunca! Pensa em sair. É a única opção que lhe ocorre. Sai com a cesta. Optara pela cesta, ao invés do carrinho, pois não faria grandes compras, só alguns itens para tornar sua noite solitária menos azeda; procurava melhores sabores, talvez mais adocicados ou inebriantes. Chega ao estacionamento com a cesta na mão. Sente-se ridícula. Volta. Quer seu celular, contar a alguém a triste cena que vira. Onde está seu celular? Precisa dividir esse momento. Não resistiria a isso sem contar a alguém. O celular! Procura em vão nos bolsos da calça, do casaco, na bolsa. Resolve ir até o carro procurá-lo. Devolve a cesta na pilha de cestas dentro do mercado. Vai ao carro, abre a porta, procura. Não encontra o celular. Retorna.
Mais calma, pega novamente uma cesta e dirigi-se à fila da padaria. Mesmo após as idas e vindas ao estacionamento, ficara logo depois do velho homem. Na frente dele, ali parado o tempo todo, ela vê um colega de infância, adolescência talvez. Não têm intimidade para iniciar uma conversa. Ambos sabem conhecer-se. Olham-se disfarçadamente. Sabe que ele a vira anteriormente, perturbada, estática. Deve tê-la visto hesitando. O que pensaria sobre ela? Sobre a atitude que ela teve. Ou não teve. Sobre ter ficado parada sem saber aonde ir. Teria percebido do que se tratava? Isso não tinha mais a mínima importância. Observa novamente o pobre velho, ali à sua frente, tão perto. Entrava frio pela careca e pela sola dele. Pela cabeça e pelo pé. Uma vez falaram a ela que o frio entra no corpo principalmente pelas extremidades: mão, pé, orelha, nariz ficam mais expostos ao frio; disseram que a baixa temperatura causa uma constrição maior dos vasos sanguíneos e a quantidade de sangue diminui muito nessas regiões que acabam mais gelados no inverno. O pobre gasto deve estar todo gelado. Deve estar sentindo um frio extremo.
Pensa em abordar o homem. Perguntar onde ele mora. Se poderia mais tarde lhe levar um chinelo novo. Um sapato fechado. Veria o que seria possível arranjar com seu pai. Então considera que perguntar o endereço seria muito invasivo. Melhor seria oferecer-se para comprar-lhe, ali mesmo, um calçado. Mas que direito tinha ela de abordá-lo? Uma estranha! Como ele reagiria? O que lhe diria? Queria ele piedade? Ou se irritaria? Quem sabe ele se ofenderia? Nem todos são dóceis. Nem todos esperam ajuda. Por que está esse homem nessa situação? Uma vez seu pai lhe disse que quem passa trabalho na velhice não trabalhou o suficiente quando novo. Não há ninguém para ajudá-lo? Um parente? Um vizinho? Que tipo de pessoa ele deve ter sido? Será que era ruim? Será que merece sua preocupação? Será que merece essa privação? Ou será que agora está em melhor situação? Afinal, faz compras no melhor mercado da cidade! Como não o proibiram de entrar lá? Por que aquele chinelo sem calcanhar? Não pode alguém escolher usar algo assim! Tem de ser por necessidade! A única explicação é não ter outra opção! Mas como encará-lo? Como aproximar-se? E, depois, como propor-lhe? A dúvida a corroi.
Imagina inúmeras vezes esse contato. Como quem encontra motivo para iniciar a conversa, inclina o corpo para fazê-lo. Inicia um gesto, levantando a mão, esticando o braço. Ensaia alguma fala. Retrai-se. Deixa a cesta ali mesmo e vai embora.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Batida

Meu coração não bate.
Ele quica.
Qui-ca-lor!
Quando penso em nós dois
O ardor me abate.