Se vai ou esvai?

Lá vem ela, ao longe, deixando seu rastro brilhante, brilhante como os sonhos que deve ter consigo, em seu íntimo, ínfimo segredo, vagarosamente, segue. Outrora, parece não ter nada em mente, gosma andarilha, segue em frente, acima, para o lado, silenciosamente. Passaria despercebida se não fosse seu rastro. Rastro de lesma! Seria isso negativo? Quantas sensações estão por trás da percepção de um rastro de lesma?
Ela se aproxima, indiferente às reações que provoca, segue devagar, a lesma. Não causa queimaduras como o bicho-cabeludo, que é, por isso, por muitos, maldito; não se transforma como a lagarta, que vira borboleta e é, por isso, admirada; só segue, não machuca, mas também não embeleza, pode ser nojenta, mas, até onde sei, não faz mal a ninguém. Ah, deixa rastro! E esse rastro, apesar de brilhante (e exatamente por ser brilhante, perceptível), não é benquisto. Quem na vida não deixa rastro? O ladrão que comete o crime perfeito? O fugitivo nunca mais encontrado? Hein!? Quem não o deixa? Quem não tem uma história? Feia ou bonita?
A lesma continua vagando, ignorando as ideias que suscita. Então a dona da casa, que vive na correria, percebe a lesma, que a ultrapassa. A mulher corre até a cozinha, pega o sal e, não por mal, mais por capricho, joga uma pitada na lesma, duas, três, a lesma se retorce. Será que coça? Será que queima? Será que doi? É agoniante um bicho agonizante. A lesma derrete. Talvez, se não tivesse se exposto, estaria viva, mas está morta. A caprichosa, com a pá de lixo, tira a lesma de seu chão, limpa o rastro e segue em seus afazeres domésticos sem pensar na vida que tirou, sem refletir sobre a natureza maquiavélica de sua atitude. Eis um ser que deixou de brilhar.

Comentários

adorei!
logo que tiver tempo venho ler outros posts
muitos parabéns!!!, isto é algo quu eu gostaria de escrever, adorei o conteúdo e tb o jeito da escrita...
Lisandra Ortiz disse…
nunca uma lesma foi tão bela.

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