segunda-feira, 12 de novembro de 2012

João Alguém


João era um menino com muitas responsabilidades, primogênito de uma família com três filhos, era também o único homem. Apesar de morar numa cidade vizinha à capital, residia em zona rural e a renda familiar resultava da venda dos produtos que produziam. Ajudava seu pai nos afazeres do dia a dia; ou melhor, fazia o que devia ser feito por seu pai, o qual, viciado em jogo e em álcool (deixava grandes quantias de dinheiro nas apostas das carreiras de cavalo), muitas vezes não saía da cama de manhã cedo para a lida. A família vendia leite; naquela época, para isso, passava-se de casa em casa com os tambos de leite na carroça. De vez em quando, o pai acompanhava João, dormindo enquanto o filho fazia todo o trabalho, mas, na maioria das vezes, João ia sozinho. Como diz uma de suas irmãs: “Ele era tratado como criança e tinha responsabilidade de adulto”.
João não recebia carinho de seu pai, que, pelo contrário, era um homem amargo e parecia ter prazer em maltratar seu filho. Certa vez, o homem disse ao menino que fosse ao armazém (armazém mesmo, na época não existia mercado) e trouxesse uma dezena de itens - não havia uma lista, João tinha de lembrar-se de cabeça do que tinha de comprar. O armazém da região não era perto e o menino fora a cavalo. Acontece que quando retornara, ele no cavalo, foi arrancado a pauladas. Seu pai, ansioso pela cachaça, foi remexer nas sacolas e não a encontrou (para João a cachaça poderia ser insignificante a ponto de esquecer-se de comprá-la – todos os outros itens estavam ali –, porém, para seu pai, era o mais importante). Depois de bater no menino, o mandou de volta ao armazém, dessa vez a pé e com os minutos marcados no relógio, pois se passasse do tempo estipulado, levaria outra surra daquelas. João chegou em casa, como ele mesmo diz, com um palmo de língua para fora, não apanhou dessa vez, o homem estava feliz com sua cachaça. Mas, João apanhava muito, pelos motivos mais injustos, pelas razões mais absurdas. O pai sempre arranjava um jeito de aplacar sua raiva sobre o filho. Assim, João se tornara um jovem revoltado, que preferia estar na casa de estranhos do que na casa do pai, era melhor tratado na casa dos outros do que em seu próprio lar.
Na escola, João tinha o apelido de Asa Negra – no lugar onde extravasava sua revolta, suas ações o marcavam como aluno-problema. Em seu tempo livre, ele maltratava animais pelo campo. Exemplo disso é a história que conta, hoje com pesar, do gatinho que ele jogou no arroio: João amarrou a perna do gato numa cordinha e o jogou na água; o bichano se debatia, tentando chegar à margem; quando João via que ele estava quase conseguindo, o retirava para, depois que ele pegasse fôlego, o jogar novamente. João conta que o pobre bicho olhava com desespero para ele, como que implorando que ele parasse, sabendo de sua impotência frente àquele que o dominava. A angústia que João via nos olhos do gato não era outra senão a dele mesmo frente ao poder autoritário e abusivo de seu pai.
Já homem feito, João presenciou uma cena que havia prometido nunca mais deixar se repetir: a mãe de João, ao interceder com seu marido, que batia numa das filhas, passou a ser agredida. O filho não teve dúvidas, pegou um banquinho que havia a seu lado e foi para cima do pai, dizendo que não permitiria mais aquele tipo de coisa; agora ele tinha tamanho para enfrentar seu pai. O homem teve de largar a mulher, mas João teve de sair de casa. Naquele dia, por não permitir que seu pai batesse em sua mãe, João fora expulso de casa. Ele passou a viver numa peça nos fundos, privado da convivência com a família, e a se alimentar com os pratos de comida que sua mãe lhe levava escondido. A mãe de João era amável e boa; porém, esposa submissa, escamoteava como podia os mandos do marido.
Nessa época, João revoltara-se de vez. Ele não tinha um norte, estava difícil encontrar motivo que o fizesse encarar a realidade com alegria, faltava-lhe amor no coração e paz de espírito. Ele queria viver a escuridão ao extremo, queria perder-se, estava desiludido, arrasado. De que adiantara ser filho trabalhador, ajudar seu pai nos trabalhos diários para que este pudesse fazer o que bem entendesse? De que adiantara defender sua mãe e suas irmãs se elas não poderiam fazer nada em relação a esse homem que se dizia seu pai? “Por que meu pai me odeia tanto!? O que eu lhe fiz!?” O pobre homem que então se tornara caía em prantos e se desesperava, não conseguia encontrar respostas para suas perguntas. A vida era ingrata.
João era, agora, um homem da noite. Seus companheiros? Uma adaga e muitos copos de cachaça. A adaga era sua parceria predileta e ele fazia questão de exibi-la, deixando à mostra sua disposição para o duelo. Sua vida mesmo, a que lhe refletia, era a vida noturna, a boemia. Ali se revelava, ali se via: entre bêbados sorrindo no bar e valentes brigando na rua­­. A cada briga, ele se sentia mais macho; a cada homem que deixava caído no chão, se sentia mais forte; a cada nova ferida em seu corpo, se sentia mais realizado. Sim, João se envolvia nessas brigas para ferir-se fisicamente, só assim lhe fazia sentido a dor que sentia e não conseguia explicar, só assim compreenderia os machucados que sentia mas não via. O álcool era uma mera tentativa de alívio desse sofrimento que não se ia nem quando as feridas do corpo cicatrizavam.
Bêbado e ferido. Assim João chegava ao quartinho destinado a ele e assim dormia. E isso aconteceu por algum tempo. Até que tudo mudou para João. Ao acordar, no dia seguinte ao de uma de suas tantas bebedeiras, ele vê, assustado, sua mãe sentada na beirada da cama. A mulher estava sentada ali há horas, esperando que ele acordasse. Enquanto o observava dormir, pensava naquele menino que um dia ele havia sido, pensava em todos os abraços que queria ter dado nele e não deu, em todos os cafunés que queria ter feito e não fez. Pensava em como gostaria de ter participado mais na vida daquele ser que ela tanto amava. Então ele acordou. Viu a mãe, circulou o olhar por todo o ambiente para ver se havia outro elemento inesperado no quarto, não encontrando nada além da mulher. Voltou o olhar para a mãe. Ela tinha em suas mãos a adaga suja de sangue, o que, ao perceber, lhe impressionara. Então a mãe perguntou:
 ― Você sabe o que é isso? ― sua voz era branda; seu olhar, firme.
― É minha adaga.
― Isso é o inferno! ― a voz e o olhar demonstrando raiva ― Isso é o inferno em que eu vivo todas as noites quando percebo você sair. É o inferno de não saber se você vai voltar. ― a voz embarga ― O inferno de pensar meu filho caído morto numa sarjeta. O inferno de imaginar te perder pra sempre!
― Mas, mãe...
― Meu filho ― o olhar úmido das lágrimas que ela segurava e a voz firme ―, me prometa, se você tem algum amor por mim, me prometa que você vai largar essa adaga. Me prometa que você vai largar essa vida sem rumo. Que vai voltar a ser um homem direito e a me dar orgulho de ser sua mãe! Você é a única esperança que eu tenho na vida! Seu pai bebe desse jeito. Você vai seguir o mesmo caminho!?
― Não, mãe. ― às lágrimas ― Vou fazer diferente. Eu lhe prometo!
Daquele dia em diante, João nunca mais carregou sua adaga. Mudou-se para a capital, retomou os estudos, que havia deixado de lado para trabalhar o tanto que lhe era exigido, arrumou um novo emprego, tinha esperanças de uma vida melhor. Não largara a boemia; mas essa então se fazia de noites inteiras a dançar. Ou em renomadas casas de dança nas zonas nobres ou em salões de dança nos diferentes morros, João sempre dava show. Das brigas, ele se esquivava enquanto dava; mas quando o outro insistia, ele mostrava o que sabia. Afinal de contas, não procurava confusão, mas também não pedia arrego. João gostava da vida que estava levando. Às vezes visitava a mãe – apesar de não ter reatado com o pai – e a via bem. Ambas as irmãs estavam namorando bons rapazes. A vida parecia estar seguindo bons ares.
Num domingo, João resolveu passear com um amigo, ver o movimento, aproveitar a tarde de sol. Em meio às árvores, que emprestavam sua sombra às famílias, aos amigos e namorados, em meio ao perfume das flores, que davam o colorido do momento, em meio à brisa fresca que cruzava o parque de um lado a outro, João viu uma menina que lhe chamou a atenção. Ela fora ao parque com seus pais, mas, naquele instante, estava distante deles. A chegar mais perto, João olhou para a menina que lhe encantara e disse:
― Com essa, eu até casava!
E casou! Primeiro, foram anos de amizade, por condição do pai da moça, pois ela era muito nova. Quando o namoro tornou-se oficial, João a levou para conhecer sua família. Foi então que fez as pazes com seu pai. Esse relacionamento fez bem a ele, pois a família dela lhe proporcionou a relação familiar que ele nunca tivera. Depois de mais alguns anos, João estava casado. Em seguida, sua esposa engravidou. Infelizmente, ela ficou doente, devido à caxumba, teve problemas na gravidez e perdeu o bebê. O casal sofrera muito com a perda de seu primeiro filho: o filho homem. Passado algum tempo, a esposa de João engravidara de novo. Nasceu sua primeira filha. Após alguns anos, nasceu a segunda menina. Ambas as filhas tinham problemas de saúde cujo tratamento tinha de ser contínuo. A esposa de João era dedicada, cuidava com carinho do marido, das filhas, era dona-de-casa caprichosa, se tornara uma mulher forte ao lado de João. Mesmo assim não era fácil para ela, não era fácil para o casal tamanha responsabilidade; não era fácil para João, o provedor, dar conta de suas obrigações. Havia épocas em que ele trabalhava em mais de um emprego para poder suprir o que sua família precisava: trabalhador honesto e incansável, ele seguia. João teve mais duas filhas.
Com a quarta filha teve o conflito de gerações: por ser a caçula, ela sentia a pressão de ser a última esperança do filho homem que não veio e não sabia como reagir em relação ao pai, que tanto desejava aquele filho. Por ser mulher de uma nova geração, e por isso bem diferente do exemplo de mulher que João tivera (sua mãe), queria o espaço – que não tinha – para opinar e mostrar suas ideias. Achava que, se nascesse homem, seu pai lhe daria a liberdade que desejava. Ele, por sua vez, sentia a pressão de criar quatro mulheres (o que, nesse mundo machista, realmente não era fácil), e acabava sendo superprotetor, o que ela entendia como opressor. Ela o questionava, o contrariava ― isso o deixava incomodado, o perturbava, ele sentia sua autoridade diminuída. João não fazia isso com seu pai e, quando o fez, foi posto para fora de casa. Não queria fazer isso com sua filha. Queria que ela simplesmente parasse!
Foi difícil para a filha entender o ponto de vista do pai, entender que ele lhe desejava o melhor, que tinha medo dos perigos que o mundo apresentaria e dos males que isso traria, mas ela compreendeu e queria que ele também compreendesse que ela queria trilhar seu próprio caminho, ter suas experiências, suas aprendizagens, apesar do inevitável sofrimento que isso traria. João era um homem sofrido e, por isso, calejado, sua filha sabia que teria de tomar a iniciativa para melhorar essa relação. Então, resolveu que diria aos pais que os amava, a cada um individualmente. O modelo familiar que João e sua esposa conheciam e recriaram não incluía ficar repetindo diariamente aos filhos que os amava. João nunca falara isso às filhas, preferia mostrar através de suas ações. Mas essa filha diria aos dois o quanto os amava. Começou pela mãe, a relação delas era mais amena, então foi fácil, ficou feliz com seu feito. Com João a situação seria mais delicada, não poderia soar cínico, então algumas conversas se fariam necessárias antes do desfecho almejado.
Certo domingo, após o almoço, ela levou a conversa para o assunto relação entre pais e filhos. Logo falavam sobre as relações de sua família. Por conseguinte, sobre a relação dos dois:
― Pai, – insegura, tateando as palavras – parece que você não me ama como às outras filhas, me sinto a ovelha negra da família.
― Os pais amam da mesma forma todos os filhos, não tem como haver diferença nesse sentimento. – calmamente ele explicava – O que acontece é que pode se ter afinidade mais com um filho do que com outro. O amor é o mesmo.
Ela sabia que o pai estava sendo sincero e, tendo certeza de que era amada, continuou a conversa até que chegasse o momento certo em que tivesse a coragem de dizer ao pai que o amava. Então, sentiu esse instante e falou com toda sua convicção:
 ― Pai, você é um exemplo pra mim. Eu te amo!
João, agora velho, começou a chorar como um menino. Soluçava fortemente, tão fortemente que sua esposa veio de outro cômodo da casa para ver o que acontecia. Ele, como a filha, não tinha certeza do amor do outro. Aquela vivência conturbada que tinham os deixava em dúvida quanto ao sentimento alheio. Todas suas inseguranças, dele e dela, se refletiam e se mostravam através daquela relação. Ambos eram inseguros e frágeis e carregavam pesos em relação a seus pais. Mas, estava claro: ela era uma filha amada; ele, um pai amado. Apesar das dificuldades com o seu, ele vencera como pai: era um exemplo.
A família, cujo patriarca é João, é uma família tradicional, que se reinventa quando preciso; é unida, uns cuidam dos outros. É preciso tempo e vontade para o entendimento, é necessário diálogo e amor. João e sua esposa são pais exemplares. Suas filhas são motivo de orgulho. João é um grande homem. Alguém para se chamar de herói.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Memórias


Fecho os olhos, vejo uma menina de pouca idade, uma criança. Ela, ansiosa, espera seu pai chegar do trabalho, pois, todos os dias, ele traz um pirulito para ela. Só ela recebe esse mimo diário de seu pai e isso a faz sentir-se especial.

Olhos fechados, vejo uma menina arteira, já em idade escolar. Ela brinca de pega-pega no colégio e acaba se chocando de cabeça com um menino que, como ela, corria. As marcas, as cicatrizes que ela tem pelo corpo deixam claro que ela gosta é de brincadeira de menino.

Sem abrir os olhos, vejo, então, uma jovem. Aluna nota dez, ela é a melhor da turma por anos consecutivos e isso a deixa segura de si. Mas, nesse ano, é diferente, há um colega que a ameaça e eles disputam o favoritismo a cada resultado, a cada avaliação entregue.

Ainda de olhos fechados, vejo uma adulta em formação, em crise, rompendo com padrões nos quais deveria se enquadrar. Acaba a relação com o primeiro namorado, aquele que dela iria cuidar. Apesar do modelo tentador, dos benefícios financeiros, não é ali que ela quer estar.

Sem precisar abrir os olhos, vejo uma mulher. Ela assiste a um filme e chora; as lágrimas que rolam por sua face são tão fugazes quanto suas certezas. Essa mulher parece tão especial e arteira quanto aquelas meninas, tão segura quanto aquela jovem, tão em crise quanto a adulta em formação.

Assistindo a outra cena do filme, ela ri um riso sincero e inesperado. O paradoxo de sua boca macia e seus dentes afiados é como o esforço que faz para manter a esperança neste mundo embrutecido.

A mulher, agora, olha o relógio. O tempo não para, da mesma forma ela tem a impressão de nunca parar. Assim como trabalham os ponteiros do relógio, incessantemente, essa mulher se desfaz e se refaz a cada instante.

Ela resolve dormir. Deita-se com a intenção de um sono tranquilo e revigorante. Ela deseja ter bons motivos para sair da cama no dia seguinte, pois, como o relógio precisa de pilhas para funcionar, ela precisa de sonhos para continuar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Descentralizando o problema

De manhã, assistindo ao telejornal, vi a jornalista de economia criticando o Brasil pela política de valorização da gasolina e desvalorização do álcool (iniciativa brasileira), considerado promissor na década de setenta. Ela dizia que o único imposto destinado ao desenvolvimento dessa indústria deixou de ser cobrado, o que impossibilitou seus avanços e, consequentemente, a fez obsoleta. Em tempos em que se discute novas formas de geração de energia e cuidados com o meio ambiente, fica difícil compreender essa notícia, fica difícil compreender certas decisões. Resta-me, já que não tenho capacidade de compreender nem de resolver esse e outros tantos equívocos, procurar meios de, pelo menos, amenizar os problemas sociais dessa sociedade organizada por injustiças. Mas, como? Muitos preferem culpar os políticos pela situação em que vivemos, assim fica mais fácil, desvia-se a responsabilidade de si mesmo e lava-se as mãos. Uma minoria faz a diferença por meio de atitudes grandiosas, não se queixam, não lamuriam sobre como deveria ser a realidade, abrem mão de si mesmos e dedicam-se inteiramente à vida alheia. Outros ainda, talvez mais egoístas do que os últimos, mas menos indiferentes do que os primeiros, realizam pequenas ações com as quais acreditam estar contribuindo para um mundo mais justo, ou menos injusto.
Admito, não sou nenhuma Madre Tereza, nenhum São Francisco, e tampouco me vejo assumindo papeis desse tipo. Cuido de minha vida, cuido de meus interesses, e – mesmo me esforçando muito para alcançar meus objetivos, que são estipulados gradativamente, de acordo com o momento em que vivo – por ora desanimo, digo a verdade, não é fácil. Trabalhar com educação num país de terceiro mundo, no qual tudo tem mais importância do que instrução e cultura, por vezes, se torna desanimador, principalmente, por algumas situações com as quais nos deparamos no dia a dia. Porém, procuro manter minhas atitudes coerentes as minhas ideias, agir de forma condizente a meu discurso. E, se não sei o que fazer ou dizer, não tenho problema nenhum em aceitar minhas dúvidas, minhas fraquezas. Não tenho a necessidade de ter sempre resposta pra tudo. Considero ridículos aqueles que sabem tudo.
Não faço serviço voluntário, não adotei nenhum cão sem dono, nem tenho planos de organizar eventos beneficentes. Mas, procuro ouvir com atenção aqueles que comigo desabafam, pois, isso, para mim, é sinal de confiança e esperança. Confiança porque eles me confiam seus segredos, esperança porque essas pessoas esperam de mim uma palavra de conforto, palavra essa que eles sabem e/ou acreditam ser sincera ou por me conhecerem, ou por simples e inexplicavelmente sentirem essa vibração em mim.
Apesar de ter certeza de que não me candidatarei à presidência e de não ter a pretensão de mudar o mundo sozinha, tenho certeza de que colaboro para melhorias em meu entorno, pois, não fecho os olhos frente aos acontecimentos. Posiciono-me, participo, concordo, discordo, apresento novas ideias, valorizo ideais distintos, faço acontecer e faço diferente, contribuindo diretamente com a realidade em que vivo. A alienação e a indiferença só facilitam a perpetuação do poder nas mãos de dominantes incapazes e inescrupulosos, que se protegem entre si. Se cada um de nós se fizer ouvir, a iniciar num microcampo, e agir, a tendência é dessa postura se expandir, seguir a macrocampo e difundir - preciso pensar assim, preciso alimentar minha esperança. Porém, enquanto isso não acontece, amenizemos as desigualdades para nós mesmos.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sirenar interno

Na aula, sábado, em meio a leitura de crônicas de variados autores, que iam de Rubem Braga a Martha Medeiros, já passado o momento em que eram explicados conceitos como deboche e ironia, estava eu ali um pouco menos interessada. Meus pensamentos oscilavam entre os textos lidos e os planos para a tarde de sábado, depois da aula, cuidando para disfarçar meu distanciamento. Então, escuto, ao longe, uma sirene, não sei se de ambulância ou de polícia, e nesse exato instante, saio completamente dali.
Sirene, pra mim, sempre foi sinônimo de metrópole. Eu assistia a filmes e seriados ambientados em importantes cidades, como Paris ou Nova Iorque, e me dava conta de que as sirenes eram um efeito usado, muitas vezes, para marcar essa característica, dar o ar metropolitano. Uma metrópole me remete a grandes sensações, multidões, muitos "ões". Mas, eu estava ali, sozinha, perdidinha, em meus pensamentos. O que acontece lá fora? Será que houve um acidente? Será que há alguém ferido? Será que morto? Ou algum crime foi desvendado? Alguém foi preso? Encurralado? Terá reféns? Quanta coisa acontece que eu não sei!
Eu poderia pensar: não me diz respeito! não me interessa! A questão é que a gente fala isso pra muita coisa que nos diz respeito sim! O problema é que estamos tão ocupados cuidando de nossas obrigações, de nossos interesses, que não temos tempo pra pensar no que tange ao coletivo. Cada vez mais estamos entregues ao individualismo das grandes metrópoles, onde, mesmo cercado de gente, ficamos sozinhos, com nossas próprias demandas e nossas próprias desculpas. Cada um constroi suas verdades, conforme lhe é aprazível, e as vive. Melhor se não houver ninguém para questioná-las, melhor que ninguém as destrua. E, o pior, esse individualismo é externo, pois é superficial, uma falsa sensação de autossuficiência.
Nos momentos em que sou tomada por esses pensamentos, desejo ir para o interior. Lá as pessoas são mais próximas, todos se conhecem, todos se cumprimentam, ninguém passa por dificuldades sem compartilhá-las com os demais, que o ajudam. No interior não há sirenes, não penso se há ambulâncias buscando ou trazendo moribundos, se há alguém sob cárcere privado ou se dirigindo para cárcere público. Lá as dores são divididas e diminuídas, as alegrias, somadas e multiplicadas. No interior, não somos indivíduos, somos sujeitos. No interior de nós mesmos, podemos ser como quisermos, mas é importante não permitirmos que esse interior seja um fim em si mesmo. O interior tem que externar na metrópole, enchê-la de indagações. Esse interior não pode ser fechado, deve ser desbravador. Um interior coletivo, que nos leve para a rua ao toque da sirene ao invés de fechar as janelas para não ouvi-la.
Naquele sábado a aula acabou mais cedo, eu, que continuava ali sentada, preparei-me para ir embora, e, na cabeça, um pensamento: unidade transcendental.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Será que chora? Será que sente?

Uma entre quatro esculturas de barro chama minha atenção pela forma. Irregular, como as outras, tem sentido obviamente abstrato e se destaca a partir do momento em que, de determinado ângulo, vejo nela um corpo humano, corpo de mulher foi a primeira impressão, para dizer a verdade. Isso porque são das mulheres que se espera, pelo modelo estético dominante, aquela protuberância traseira que é evidente no objeto de barro observado. Bunda um tanto quanto empinada, até grande, pode se dizer, assim como as coxas, a base da escultura - enormes!

É impressionante a visão em relação à suposta coluna, pois havia aquela imensa bunda e, então, ao contornar uma acentuada curva, estava ali, na vertical, a reta, onde vi coluna. Sigo a reta e chego ao topo, a cabeça se faz mínima, parece, inclusive, a metade, pois há um corte brutal que a deixa reta e inacabada; além de metade, ela é mínima, quase nada - pois, nessa escultura de barro, o topo, que eu chamo cabeça, não chega a ter um décimo da circunferência do que eu disse bunda.

Esta escultura lembra-me do famoso quadro da Tarsila Amaral, cujo nome não lembro agora, que retrata uma mulher com o corpo enorme e a cabeça pequena. Será que quem fez a escultura pensava nessa obra? Será que tinha a intenção de fazer a mesma crítica? Será que realmente Tarsila Amaral fazia essa crítica? Tem mais, ao olhar por cima da escultura, vejo a cabeça oca. Além de metade, além de mínima, é oca!

Sigo a perceber a escultura, mudo novamente meu ângulo e vejo o que, em minha comparação, chamaria de braços; a escultura apresenta braços largos, não tão largos quanto os quadris, mas mais largos do que a cabeça - essa mulher que vejo exerce algum poder com seus braços, não é seu ponto forte, se comparados aos quadris, mas nem tão fraco quanto a cabeça. Porém, apesar de largos, são curtos, o que retrata o curto alcance desse poder.

Ando um pouco para o lado e tenho uma nova perspectiva da escultura: arames foram usados para fechar fendas que haviam nesse barro, como os pontos no hospital são usados para fechar nossos cortes - remendos. Analiso com certo estranhamento aqueles arames, que estão escuros, tomados pela ferrugem, e então vejo, abaixo da maior das cicatrizes e já permanentemente ali, a marca do líquido que escorrera do arame, líquido resultante da ferrugem, líquido denso: uma lágrima.