sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pés sem chão ou chão sem chinelos



Era um fim de tarde chuvoso. Uma tarde de sábado fria. O outono havia começado a dar caras de inverno. As pessoas voltavam a sentir aquele gosto - gostoso - de permanecer em suas casas quentinhas.
Estava no supermercado. Ainda no estacionamento se dera conta de que o lugar estava lotado. Tráfico intenso de veículos. Um esperando o outro sair para aproveitar a vaga. Não querendo ficar distante da porta, não querendo se molhar, esperou no interior de seu carro o melhor lugar que pudera arrumar. Conseguiu. Estacionara, saíra. Foi às compras.
Entrara no mercado olhando para os lados. Não via nenhum jovem, ninguém sozinho, nenhum pretendente a namorado. Distraída, pensava o que mais quereria, o que mais precisaria. Não costumava fazer as compras da casa. Não tinha essa responsabilidade. Ia ao mercado quando tinha vontades supérfluas, caprichos. Fora isso, estava acostumada a abrir os armários e encontrar o que precisava. Primeiro corredor. Dobra a esquina em direção ao centro do mercado. Lá fica a padaria: pães quentes, cucas frescas, manteigas derretidas. O fluxo de gente é pra lá. Estando lá, iniciaria sua pesquisa, sua análise, suas escolhas. Olha e vê, seguindo o mesmo fluxo, pouco à frente, um homem. Um velho. Um homem velho. Devia ter uns sessenta anos. Setenta. Comparando a seu pai... Estranho. Não considera seu pai um velho. Mas esse homem lhe parece velho. É provável que seja um homem velho. Um homem cujos anos passados foram difíceis.
Grisalho, com certa careca, lhe restava pouco cabelo - nas beiradas. No contorno da cabeça ele tinha cabelo, e era comprido. Nem tão comprido. Não batia no ombro, era um pouco mais curto. Não estava limpo, era oleoso e sem corte. Mas penteado. A roupa era limpa. Gasta, desbotada, velha - mas limpa. Era de se espantar, ao menos de se fazer pensar, que aquele homem com tantos paradoxos era ao mesmo tempo tão simples. Ela segue olhando. Olha os pés. O velho homem estava de chinelo. Chinelo de dedo, de borracha, estilo havaianas; mas não era havaianas  - não era de marca. Ele não poderia comprar chinelos de marca. Com aquele tempo, aquele frio, aquele velho de chinelo de dedo no mercado... Olha com mais atenção, já com pena daquele moribundo, e não pode acreditar no que vê. O chinelo do homem não era velho, era pior; era gasto. As solas de ambos os pés do chinelo eram gastas para dentro. E, ao observar ainda melhor, quando o pobre velho dera um passo à frente, vê o que não acredita ver. O chinelo não era só barato, não era só velho, não era só gasto. Não! Era furado. Não um furo feito num momento, por algum descuido qualquer ou acidente. Era um furo feito pela ação do tempo. O calcanhar do pé esquerdo do chinelo do velho não existia. De tão gasto, havia um rombo. A sola do calcanhar do próprio pé do velho estava fazendo as vezes de chinelo. O homem não era só velho, era gasto!
Desnorteada. Perde-se por alguns segundos. Nunca, em hipótese alguma, pensara passar por isso. Nunca imaginara ver tal cena nesse que é o melhor mercado de sua cidade. Num mercado de subúrbio? Talvez. Mas nesse nunca! Pensa em sair. É a única opção que lhe ocorre. Sai com a cesta. Optara pela cesta, ao invés do carrinho, pois não faria grandes compras, só alguns itens para tornar sua noite solitária menos azeda; procurava melhores sabores, talvez mais adocicados ou inebriantes. Chega ao estacionamento com a cesta na mão. Sente-se ridícula. Volta. Quer seu celular, contar a alguém a triste cena que vira. Onde está seu celular? Precisa dividir esse momento. Não resistiria a isso sem contar a alguém. O celular! Procura em vão nos bolsos da calça, do casaco, na bolsa. Resolve ir até o carro procurá-lo. Devolve a cesta na pilha de cestas dentro do mercado. Vai ao carro, abre a porta, procura. Não encontra o celular. Retorna.
Mais calma, pega novamente uma cesta e dirigi-se à fila da padaria. Mesmo após as idas e vindas ao estacionamento, ficara logo depois do velho homem. Na frente dele, ali parado o tempo todo, ela vê um colega de infância, adolescência talvez. Não têm intimidade para iniciar uma conversa. Ambos sabem conhecer-se. Olham-se disfarçadamente. Sabe que ele a vira anteriormente, perturbada, estática. Deve tê-la visto hesitando. O que pensaria sobre ela? Sobre a atitude que ela teve. Ou não teve. Sobre ter ficado parada sem saber aonde ir. Teria percebido do que se tratava? Isso não tinha mais a mínima importância. Observa novamente o pobre velho, ali à sua frente, tão perto. Entrava frio pela careca e pela sola dele. Pela cabeça e pelo pé. Uma vez falaram a ela que o frio entra no corpo principalmente pelas extremidades: mão, pé, orelha, nariz ficam mais expostos ao frio; disseram que a baixa temperatura causa uma constrição maior dos vasos sanguíneos e a quantidade de sangue diminui muito nessas regiões que acabam mais gelados no inverno. O pobre gasto deve estar todo gelado. Deve estar sentindo um frio extremo.
Pensa em abordar o homem. Perguntar onde ele mora. Se poderia mais tarde lhe levar um chinelo novo. Um sapato fechado. Veria o que seria possível arranjar com seu pai. Então considera que perguntar o endereço seria muito invasivo. Melhor seria oferecer-se para comprar-lhe, ali mesmo, um calçado. Mas que direito tinha ela de abordá-lo? Uma estranha! Como ele reagiria? O que lhe diria? Queria ele piedade? Ou se irritaria? Quem sabe ele se ofenderia? Nem todos são dóceis. Nem todos esperam ajuda. Por que está esse homem nessa situação? Uma vez seu pai lhe disse que quem passa trabalho na velhice não trabalhou o suficiente quando novo. Não há ninguém para ajudá-lo? Um parente? Um vizinho? Que tipo de pessoa ele deve ter sido? Será que era ruim? Será que merece sua preocupação? Será que merece essa privação? Ou será que agora está em melhor situação? Afinal, faz compras no melhor mercado da cidade! Como não o proibiram de entrar lá? Por que aquele chinelo sem calcanhar? Não pode alguém escolher usar algo assim! Tem de ser por necessidade! A única explicação é não ter outra opção! Mas como encará-lo? Como aproximar-se? E, depois, como propor-lhe? A dúvida a corroi.
Imagina inúmeras vezes esse contato. Como quem encontra motivo para iniciar a conversa, inclina o corpo para fazê-lo. Inicia um gesto, levantando a mão, esticando o braço. Ensaia alguma fala. Retrai-se. Deixa a cesta ali mesmo e vai embora.

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