terça-feira, 19 de outubro de 2010

Paixão

Se guardares na caixinha dia a dia a impressão
Se deixares o sentimento escondido no caixão
Se quiseres dizer sim mas insistires no não
Qual há de ser sua real manifestação?

Mas sei que sentes, que queres, que sabes:
Esse sentir que renova o ser, um elixir
Esse querer que inebria, turva, delicia
Essa ciência insipiente, contradizente

Caixas abrindo, bocas parindo
Sempre há riscos a correr
Não há mais o que dizer

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Brumas

Oh, vertigem que me toma!
Como pude eu ficar assim?
Num desejar-te sem fim
Que me assola, hipnotiza
Me desarma, instabiliza

Que fazer com tal sensação?
Tormento e contentamento
Inexplicável inquietação
Desvairio arrebatador
Medo do porvir enfim

Preenches meu sentido, minha alma
Completas meu corpo, me acalma
Louca ilusão, ardente paixão
Quero-te comigo sem pudor
Faz-se brumas: incerto amor.

domingo, 3 de outubro de 2010

Navegar é preciso. Viver não é preciso.

Grandes navegações! Aventuras! Emoções!
Em uma época em que realização estava ligada a viagens em alto mar e exploração de terras desconhecidas (leia-se terra e mar no sentido mais literal possível), a situação de quem não o fazia era insustentável. Sim! Inaceitável.
Essa era a visão de Abelardo, jovem rapaz, cheio de possibilidades; mas, com uma imagem distorcida de si mesmo. Pensava-se um pobre coitado, incapaz de atingir sua meta de ser um grande navegador! Um explorador! Sentia-se mais um explorado! Um desajeitado.
"Navegar é preciso! Viver não é preciso!"
Assim Abelardo dizia, por vezes preferindo a morte à realidade que se apresentava a ele dia a dia. Não sorria, não cantava, já não lia. Só havia uma vontade. Somente isso lhe era necessário. Mas, isto, ele não conseguia.
Resolveu então dedicar-se a seu objetivo: pôs-se a aprender as ciências marítimas, a engenharia naval, as influências climáticas... Abelardo dedicou-se realmente e aprendeu muito. Seu conhecimento virou reconhecimento. Seus talentos foram considerados. Seu sonho de navegar sobre mares nunca d'antes navegados tornou-se real.
Que maravilha! Quantas expedições! Quantas situações de perigo! Quantos confrontos! Quantas histórias extraordinárias Abelardo poderia de fato contar! Quanta bravura! Ele era outro homem! Havia mudado sua maneira de pensar, sua forma de ver o mundo. Já não era mais uma vítima, já podia fazer suas próprias escolhas, confiava em si mesmo, acreditava em suas ideias. A navegação mudou a vida de Abelardo!
Mas, apesar de todas as mudanças, ele continuava a dizer:
"Navegar é preciso. Viver não é preciso."
As pessoas, que anteriormente ouviam suas lamúrias e agora viam aquele homem corajoso, destemido, repetindo as mesmas palavras, não entendiam o que acontecia. Abelardo não explicava, já não estava interessado em esclarecer seus pensamentos, suas atitudes, aos outros.
Entretanto, com a expressão de quem se considera sábio por compreender o que muitos não o fazem (ele agora explora outros mares, outras terras - com um sentido bem menos literal), Abelardo repete seguidamente tais orações e continua para si mesmo: "Navegar é uma ciência, é exato, preciso! Viver não é ciência, é sensibilidade, é incerteza, surpresa!"
Viver não é preciso! Viver é uma arte!
Viver bem então... Uma obra-prima!