segunda-feira, 12 de novembro de 2012

João Alguém


João era um menino com muitas responsabilidades, primogênito de uma família com três filhos, era também o único homem. Apesar de morar numa cidade vizinha à capital, residia em zona rural e a renda familiar resultava da venda dos produtos que produziam. Ajudava seu pai nos afazeres do dia a dia; ou melhor, fazia o que devia ser feito por seu pai, o qual, viciado em jogo e em álcool (deixava grandes quantias de dinheiro nas apostas das carreiras de cavalo), muitas vezes não saía da cama de manhã cedo para a lida. A família vendia leite; naquela época, para isso, passava-se de casa em casa com os tambos de leite na carroça. De vez em quando, o pai acompanhava João, dormindo enquanto o filho fazia todo o trabalho, mas, na maioria das vezes, João ia sozinho. Como diz uma de suas irmãs: “Ele era tratado como criança e tinha responsabilidade de adulto”.
João não recebia carinho de seu pai, que, pelo contrário, era um homem amargo e parecia ter prazer em maltratar seu filho. Certa vez, o homem disse ao menino que fosse ao armazém (armazém mesmo, na época não existia mercado) e trouxesse uma dezena de itens - não havia uma lista, João tinha de lembrar-se de cabeça do que tinha de comprar. O armazém da região não era perto e o menino fora a cavalo. Acontece que quando retornara, ele no cavalo, foi arrancado a pauladas. Seu pai, ansioso pela cachaça, foi remexer nas sacolas e não a encontrou (para João a cachaça poderia ser insignificante a ponto de esquecer-se de comprá-la – todos os outros itens estavam ali –, porém, para seu pai, era o mais importante). Depois de bater no menino, o mandou de volta ao armazém, dessa vez a pé e com os minutos marcados no relógio, pois se passasse do tempo estipulado, levaria outra surra daquelas. João chegou em casa, como ele mesmo diz, com um palmo de língua para fora, não apanhou dessa vez, o homem estava feliz com sua cachaça. Mas, João apanhava muito, pelos motivos mais injustos, pelas razões mais absurdas. O pai sempre arranjava um jeito de aplacar sua raiva sobre o filho. Assim, João se tornara um jovem revoltado, que preferia estar na casa de estranhos do que na casa do pai, era melhor tratado na casa dos outros do que em seu próprio lar.
Na escola, João tinha o apelido de Asa Negra – no lugar onde extravasava sua revolta, suas ações o marcavam como aluno-problema. Em seu tempo livre, ele maltratava animais pelo campo. Exemplo disso é a história que conta, hoje com pesar, do gatinho que ele jogou no arroio: João amarrou a perna do gato numa cordinha e o jogou na água; o bichano se debatia, tentando chegar à margem; quando João via que ele estava quase conseguindo, o retirava para, depois que ele pegasse fôlego, o jogar novamente. João conta que o pobre bicho olhava com desespero para ele, como que implorando que ele parasse, sabendo de sua impotência frente àquele que o dominava. A angústia que João via nos olhos do gato não era outra senão a dele mesmo frente ao poder autoritário e abusivo de seu pai.
Já homem feito, João presenciou uma cena que havia prometido nunca mais deixar se repetir: a mãe de João, ao interceder com seu marido, que batia numa das filhas, passou a ser agredida. O filho não teve dúvidas, pegou um banquinho que havia a seu lado e foi para cima do pai, dizendo que não permitiria mais aquele tipo de coisa; agora ele tinha tamanho para enfrentar seu pai. O homem teve de largar a mulher, mas João teve de sair de casa. Naquele dia, por não permitir que seu pai batesse em sua mãe, João fora expulso de casa. Ele passou a viver numa peça nos fundos, privado da convivência com a família, e a se alimentar com os pratos de comida que sua mãe lhe levava escondido. A mãe de João era amável e boa; porém, esposa submissa, escamoteava como podia os mandos do marido.
Nessa época, João revoltara-se de vez. Ele não tinha um norte, estava difícil encontrar motivo que o fizesse encarar a realidade com alegria, faltava-lhe amor no coração e paz de espírito. Ele queria viver a escuridão ao extremo, queria perder-se, estava desiludido, arrasado. De que adiantara ser filho trabalhador, ajudar seu pai nos trabalhos diários para que este pudesse fazer o que bem entendesse? De que adiantara defender sua mãe e suas irmãs se elas não poderiam fazer nada em relação a esse homem que se dizia seu pai? “Por que meu pai me odeia tanto!? O que eu lhe fiz!?” O pobre homem que então se tornara caía em prantos e se desesperava, não conseguia encontrar respostas para suas perguntas. A vida era ingrata.
João era, agora, um homem da noite. Seus companheiros? Uma adaga e muitos copos de cachaça. A adaga era sua parceria predileta e ele fazia questão de exibi-la, deixando à mostra sua disposição para o duelo. Sua vida mesmo, a que lhe refletia, era a vida noturna, a boemia. Ali se revelava, ali se via: entre bêbados sorrindo no bar e valentes brigando na rua­­. A cada briga, ele se sentia mais macho; a cada homem que deixava caído no chão, se sentia mais forte; a cada nova ferida em seu corpo, se sentia mais realizado. Sim, João se envolvia nessas brigas para ferir-se fisicamente, só assim lhe fazia sentido a dor que sentia e não conseguia explicar, só assim compreenderia os machucados que sentia mas não via. O álcool era uma mera tentativa de alívio desse sofrimento que não se ia nem quando as feridas do corpo cicatrizavam.
Bêbado e ferido. Assim João chegava ao quartinho destinado a ele e assim dormia. E isso aconteceu por algum tempo. Até que tudo mudou para João. Ao acordar, no dia seguinte ao de uma de suas tantas bebedeiras, ele vê, assustado, sua mãe sentada na beirada da cama. A mulher estava sentada ali há horas, esperando que ele acordasse. Enquanto o observava dormir, pensava naquele menino que um dia ele havia sido, pensava em todos os abraços que queria ter dado nele e não deu, em todos os cafunés que queria ter feito e não fez. Pensava em como gostaria de ter participado mais na vida daquele ser que ela tanto amava. Então ele acordou. Viu a mãe, circulou o olhar por todo o ambiente para ver se havia outro elemento inesperado no quarto, não encontrando nada além da mulher. Voltou o olhar para a mãe. Ela tinha em suas mãos a adaga suja de sangue, o que, ao perceber, lhe impressionara. Então a mãe perguntou:
 ― Você sabe o que é isso? ― sua voz era branda; seu olhar, firme.
― É minha adaga.
― Isso é o inferno! ― a voz e o olhar demonstrando raiva ― Isso é o inferno em que eu vivo todas as noites quando percebo você sair. É o inferno de não saber se você vai voltar. ― a voz embarga ― O inferno de pensar meu filho caído morto numa sarjeta. O inferno de imaginar te perder pra sempre!
― Mas, mãe...
― Meu filho ― o olhar úmido das lágrimas que ela segurava e a voz firme ―, me prometa, se você tem algum amor por mim, me prometa que você vai largar essa adaga. Me prometa que você vai largar essa vida sem rumo. Que vai voltar a ser um homem direito e a me dar orgulho de ser sua mãe! Você é a única esperança que eu tenho na vida! Seu pai bebe desse jeito. Você vai seguir o mesmo caminho!?
― Não, mãe. ― às lágrimas ― Vou fazer diferente. Eu lhe prometo!
Daquele dia em diante, João nunca mais carregou sua adaga. Mudou-se para a capital, retomou os estudos, que havia deixado de lado para trabalhar o tanto que lhe era exigido, arrumou um novo emprego, tinha esperanças de uma vida melhor. Não largara a boemia; mas essa então se fazia de noites inteiras a dançar. Ou em renomadas casas de dança nas zonas nobres ou em salões de dança nos diferentes morros, João sempre dava show. Das brigas, ele se esquivava enquanto dava; mas quando o outro insistia, ele mostrava o que sabia. Afinal de contas, não procurava confusão, mas também não pedia arrego. João gostava da vida que estava levando. Às vezes visitava a mãe – apesar de não ter reatado com o pai – e a via bem. Ambas as irmãs estavam namorando bons rapazes. A vida parecia estar seguindo bons ares.
Num domingo, João resolveu passear com um amigo, ver o movimento, aproveitar a tarde de sol. Em meio às árvores, que emprestavam sua sombra às famílias, aos amigos e namorados, em meio ao perfume das flores, que davam o colorido do momento, em meio à brisa fresca que cruzava o parque de um lado a outro, João viu uma menina que lhe chamou a atenção. Ela fora ao parque com seus pais, mas, naquele instante, estava distante deles. A chegar mais perto, João olhou para a menina que lhe encantara e disse:
― Com essa, eu até casava!
E casou! Primeiro, foram anos de amizade, por condição do pai da moça, pois ela era muito nova. Quando o namoro tornou-se oficial, João a levou para conhecer sua família. Foi então que fez as pazes com seu pai. Esse relacionamento fez bem a ele, pois a família dela lhe proporcionou a relação familiar que ele nunca tivera. Depois de mais alguns anos, João estava casado. Em seguida, sua esposa engravidou. Infelizmente, ela ficou doente, devido à caxumba, teve problemas na gravidez e perdeu o bebê. O casal sofrera muito com a perda de seu primeiro filho: o filho homem. Passado algum tempo, a esposa de João engravidara de novo. Nasceu sua primeira filha. Após alguns anos, nasceu a segunda menina. Ambas as filhas tinham problemas de saúde cujo tratamento tinha de ser contínuo. A esposa de João era dedicada, cuidava com carinho do marido, das filhas, era dona-de-casa caprichosa, se tornara uma mulher forte ao lado de João. Mesmo assim não era fácil para ela, não era fácil para o casal tamanha responsabilidade; não era fácil para João, o provedor, dar conta de suas obrigações. Havia épocas em que ele trabalhava em mais de um emprego para poder suprir o que sua família precisava: trabalhador honesto e incansável, ele seguia. João teve mais duas filhas.
Com a quarta filha teve o conflito de gerações: por ser a caçula, ela sentia a pressão de ser a última esperança do filho homem que não veio e não sabia como reagir em relação ao pai, que tanto desejava aquele filho. Por ser mulher de uma nova geração, e por isso bem diferente do exemplo de mulher que João tivera (sua mãe), queria o espaço – que não tinha – para opinar e mostrar suas ideias. Achava que, se nascesse homem, seu pai lhe daria a liberdade que desejava. Ele, por sua vez, sentia a pressão de criar quatro mulheres (o que, nesse mundo machista, realmente não era fácil), e acabava sendo superprotetor, o que ela entendia como opressor. Ela o questionava, o contrariava ― isso o deixava incomodado, o perturbava, ele sentia sua autoridade diminuída. João não fazia isso com seu pai e, quando o fez, foi posto para fora de casa. Não queria fazer isso com sua filha. Queria que ela simplesmente parasse!
Foi difícil para a filha entender o ponto de vista do pai, entender que ele lhe desejava o melhor, que tinha medo dos perigos que o mundo apresentaria e dos males que isso traria, mas ela compreendeu e queria que ele também compreendesse que ela queria trilhar seu próprio caminho, ter suas experiências, suas aprendizagens, apesar do inevitável sofrimento que isso traria. João era um homem sofrido e, por isso, calejado, sua filha sabia que teria de tomar a iniciativa para melhorar essa relação. Então, resolveu que diria aos pais que os amava, a cada um individualmente. O modelo familiar que João e sua esposa conheciam e recriaram não incluía ficar repetindo diariamente aos filhos que os amava. João nunca falara isso às filhas, preferia mostrar através de suas ações. Mas essa filha diria aos dois o quanto os amava. Começou pela mãe, a relação delas era mais amena, então foi fácil, ficou feliz com seu feito. Com João a situação seria mais delicada, não poderia soar cínico, então algumas conversas se fariam necessárias antes do desfecho almejado.
Certo domingo, após o almoço, ela levou a conversa para o assunto relação entre pais e filhos. Logo falavam sobre as relações de sua família. Por conseguinte, sobre a relação dos dois:
― Pai, – insegura, tateando as palavras – parece que você não me ama como às outras filhas, me sinto a ovelha negra da família.
― Os pais amam da mesma forma todos os filhos, não tem como haver diferença nesse sentimento. – calmamente ele explicava – O que acontece é que pode se ter afinidade mais com um filho do que com outro. O amor é o mesmo.
Ela sabia que o pai estava sendo sincero e, tendo certeza de que era amada, continuou a conversa até que chegasse o momento certo em que tivesse a coragem de dizer ao pai que o amava. Então, sentiu esse instante e falou com toda sua convicção:
 ― Pai, você é um exemplo pra mim. Eu te amo!
João, agora velho, começou a chorar como um menino. Soluçava fortemente, tão fortemente que sua esposa veio de outro cômodo da casa para ver o que acontecia. Ele, como a filha, não tinha certeza do amor do outro. Aquela vivência conturbada que tinham os deixava em dúvida quanto ao sentimento alheio. Todas suas inseguranças, dele e dela, se refletiam e se mostravam através daquela relação. Ambos eram inseguros e frágeis e carregavam pesos em relação a seus pais. Mas, estava claro: ela era uma filha amada; ele, um pai amado. Apesar das dificuldades com o seu, ele vencera como pai: era um exemplo.
A família, cujo patriarca é João, é uma família tradicional, que se reinventa quando preciso; é unida, uns cuidam dos outros. É preciso tempo e vontade para o entendimento, é necessário diálogo e amor. João e sua esposa são pais exemplares. Suas filhas são motivo de orgulho. João é um grande homem. Alguém para se chamar de herói.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Memórias


Fecho os olhos, vejo uma menina de pouca idade, uma criança. Ela, ansiosa, espera seu pai chegar do trabalho, pois, todos os dias, ele traz um pirulito para ela. Só ela recebe esse mimo diário de seu pai e isso a faz sentir-se especial.

Olhos fechados, vejo uma menina arteira, já em idade escolar. Ela brinca de pega-pega no colégio e acaba se chocando de cabeça com um menino que, como ela, corria. As marcas, as cicatrizes que ela tem pelo corpo deixam claro que ela gosta é de brincadeira de menino.

Sem abrir os olhos, vejo, então, uma jovem. Aluna nota dez, ela é a melhor da turma por anos consecutivos e isso a deixa segura de si. Mas, nesse ano, é diferente, há um colega que a ameaça e eles disputam o favoritismo a cada resultado, a cada avaliação entregue.

Ainda de olhos fechados, vejo uma adulta em formação, em crise, rompendo com padrões nos quais deveria se enquadrar. Acaba a relação com o primeiro namorado, aquele que dela iria cuidar. Apesar do modelo tentador, dos benefícios financeiros, não é ali que ela quer estar.

Sem precisar abrir os olhos, vejo uma mulher. Ela assiste a um filme e chora; as lágrimas que rolam por sua face são tão fugazes quanto suas certezas. Essa mulher parece tão especial e arteira quanto aquelas meninas, tão segura quanto aquela jovem, tão em crise quanto a adulta em formação.

Assistindo a outra cena do filme, ela ri um riso sincero e inesperado. O paradoxo de sua boca macia e seus dentes afiados é como o esforço que faz para manter a esperança neste mundo embrutecido.

A mulher, agora, olha o relógio. O tempo não para, da mesma forma ela tem a impressão de nunca parar. Assim como trabalham os ponteiros do relógio, incessantemente, essa mulher se desfaz e se refaz a cada instante.

Ela resolve dormir. Deita-se com a intenção de um sono tranquilo e revigorante. Ela deseja ter bons motivos para sair da cama no dia seguinte, pois, como o relógio precisa de pilhas para funcionar, ela precisa de sonhos para continuar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Descentralizando o problema

De manhã, assistindo ao telejornal, vi a jornalista de economia criticando o Brasil pela política de valorização da gasolina e desvalorização do álcool (iniciativa brasileira), considerado promissor na década de setenta. Ela dizia que o único imposto destinado ao desenvolvimento dessa indústria deixou de ser cobrado, o que impossibilitou seus avanços e, consequentemente, a fez obsoleta. Em tempos em que se discute novas formas de geração de energia e cuidados com o meio ambiente, fica difícil compreender essa notícia, fica difícil compreender certas decisões. Resta-me, já que não tenho capacidade de compreender nem de resolver esse e outros tantos equívocos, procurar meios de, pelo menos, amenizar os problemas sociais dessa sociedade organizada por injustiças. Mas, como? Muitos preferem culpar os políticos pela situação em que vivemos, assim fica mais fácil, desvia-se a responsabilidade de si mesmo e lava-se as mãos. Uma minoria faz a diferença por meio de atitudes grandiosas, não se queixam, não lamuriam sobre como deveria ser a realidade, abrem mão de si mesmos e dedicam-se inteiramente à vida alheia. Outros ainda, talvez mais egoístas do que os últimos, mas menos indiferentes do que os primeiros, realizam pequenas ações com as quais acreditam estar contribuindo para um mundo mais justo, ou menos injusto.
Admito, não sou nenhuma Madre Tereza, nenhum São Francisco, e tampouco me vejo assumindo papeis desse tipo. Cuido de minha vida, cuido de meus interesses, e – mesmo me esforçando muito para alcançar meus objetivos, que são estipulados gradativamente, de acordo com o momento em que vivo – por ora desanimo, digo a verdade, não é fácil. Trabalhar com educação num país de terceiro mundo, no qual tudo tem mais importância do que instrução e cultura, por vezes, se torna desanimador, principalmente, por algumas situações com as quais nos deparamos no dia a dia. Porém, procuro manter minhas atitudes coerentes as minhas ideias, agir de forma condizente a meu discurso. E, se não sei o que fazer ou dizer, não tenho problema nenhum em aceitar minhas dúvidas, minhas fraquezas. Não tenho a necessidade de ter sempre resposta pra tudo. Considero ridículos aqueles que sabem tudo.
Não faço serviço voluntário, não adotei nenhum cão sem dono, nem tenho planos de organizar eventos beneficentes. Mas, procuro ouvir com atenção aqueles que comigo desabafam, pois, isso, para mim, é sinal de confiança e esperança. Confiança porque eles me confiam seus segredos, esperança porque essas pessoas esperam de mim uma palavra de conforto, palavra essa que eles sabem e/ou acreditam ser sincera ou por me conhecerem, ou por simples e inexplicavelmente sentirem essa vibração em mim.
Apesar de ter certeza de que não me candidatarei à presidência e de não ter a pretensão de mudar o mundo sozinha, tenho certeza de que colaboro para melhorias em meu entorno, pois, não fecho os olhos frente aos acontecimentos. Posiciono-me, participo, concordo, discordo, apresento novas ideias, valorizo ideais distintos, faço acontecer e faço diferente, contribuindo diretamente com a realidade em que vivo. A alienação e a indiferença só facilitam a perpetuação do poder nas mãos de dominantes incapazes e inescrupulosos, que se protegem entre si. Se cada um de nós se fizer ouvir, a iniciar num microcampo, e agir, a tendência é dessa postura se expandir, seguir a macrocampo e difundir - preciso pensar assim, preciso alimentar minha esperança. Porém, enquanto isso não acontece, amenizemos as desigualdades para nós mesmos.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sirenar interno

Na aula, sábado, em meio a leitura de crônicas de variados autores, que iam de Rubem Braga a Martha Medeiros, já passado o momento em que eram explicados conceitos como deboche e ironia, estava eu ali um pouco menos interessada. Meus pensamentos oscilavam entre os textos lidos e os planos para a tarde de sábado, depois da aula, cuidando para disfarçar meu distanciamento. Então, escuto, ao longe, uma sirene, não sei se de ambulância ou de polícia, e nesse exato instante, saio completamente dali.
Sirene, pra mim, sempre foi sinônimo de metrópole. Eu assistia a filmes e seriados ambientados em importantes cidades, como Paris ou Nova Iorque, e me dava conta de que as sirenes eram um efeito usado, muitas vezes, para marcar essa característica, dar o ar metropolitano. Uma metrópole me remete a grandes sensações, multidões, muitos "ões". Mas, eu estava ali, sozinha, perdidinha, em meus pensamentos. O que acontece lá fora? Será que houve um acidente? Será que há alguém ferido? Será que morto? Ou algum crime foi desvendado? Alguém foi preso? Encurralado? Terá reféns? Quanta coisa acontece que eu não sei!
Eu poderia pensar: não me diz respeito! não me interessa! A questão é que a gente fala isso pra muita coisa que nos diz respeito sim! O problema é que estamos tão ocupados cuidando de nossas obrigações, de nossos interesses, que não temos tempo pra pensar no que tange ao coletivo. Cada vez mais estamos entregues ao individualismo das grandes metrópoles, onde, mesmo cercado de gente, ficamos sozinhos, com nossas próprias demandas e nossas próprias desculpas. Cada um constroi suas verdades, conforme lhe é aprazível, e as vive. Melhor se não houver ninguém para questioná-las, melhor que ninguém as destrua. E, o pior, esse individualismo é externo, pois é superficial, uma falsa sensação de autossuficiência.
Nos momentos em que sou tomada por esses pensamentos, desejo ir para o interior. Lá as pessoas são mais próximas, todos se conhecem, todos se cumprimentam, ninguém passa por dificuldades sem compartilhá-las com os demais, que o ajudam. No interior não há sirenes, não penso se há ambulâncias buscando ou trazendo moribundos, se há alguém sob cárcere privado ou se dirigindo para cárcere público. Lá as dores são divididas e diminuídas, as alegrias, somadas e multiplicadas. No interior, não somos indivíduos, somos sujeitos. No interior de nós mesmos, podemos ser como quisermos, mas é importante não permitirmos que esse interior seja um fim em si mesmo. O interior tem que externar na metrópole, enchê-la de indagações. Esse interior não pode ser fechado, deve ser desbravador. Um interior coletivo, que nos leve para a rua ao toque da sirene ao invés de fechar as janelas para não ouvi-la.
Naquele sábado a aula acabou mais cedo, eu, que continuava ali sentada, preparei-me para ir embora, e, na cabeça, um pensamento: unidade transcendental.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Será que chora? Será que sente?

Uma entre quatro esculturas de barro chama minha atenção pela forma. Irregular, como as outras, tem sentido obviamente abstrato e se destaca a partir do momento em que, de determinado ângulo, vejo nela um corpo humano, corpo de mulher foi a primeira impressão, para dizer a verdade. Isso porque são das mulheres que se espera, pelo modelo estético dominante, aquela protuberância traseira que é evidente no objeto de barro observado. Bunda um tanto quanto empinada, até grande, pode se dizer, assim como as coxas, a base da escultura - enormes!

É impressionante a visão em relação à suposta coluna, pois havia aquela imensa bunda e, então, ao contornar uma acentuada curva, estava ali, na vertical, a reta, onde vi coluna. Sigo a reta e chego ao topo, a cabeça se faz mínima, parece, inclusive, a metade, pois há um corte brutal que a deixa reta e inacabada; além de metade, ela é mínima, quase nada - pois, nessa escultura de barro, o topo, que eu chamo cabeça, não chega a ter um décimo da circunferência do que eu disse bunda.

Esta escultura lembra-me do famoso quadro da Tarsila Amaral, cujo nome não lembro agora, que retrata uma mulher com o corpo enorme e a cabeça pequena. Será que quem fez a escultura pensava nessa obra? Será que tinha a intenção de fazer a mesma crítica? Será que realmente Tarsila Amaral fazia essa crítica? Tem mais, ao olhar por cima da escultura, vejo a cabeça oca. Além de metade, além de mínima, é oca!

Sigo a perceber a escultura, mudo novamente meu ângulo e vejo o que, em minha comparação, chamaria de braços; a escultura apresenta braços largos, não tão largos quanto os quadris, mas mais largos do que a cabeça - essa mulher que vejo exerce algum poder com seus braços, não é seu ponto forte, se comparados aos quadris, mas nem tão fraco quanto a cabeça. Porém, apesar de largos, são curtos, o que retrata o curto alcance desse poder.

Ando um pouco para o lado e tenho uma nova perspectiva da escultura: arames foram usados para fechar fendas que haviam nesse barro, como os pontos no hospital são usados para fechar nossos cortes - remendos. Analiso com certo estranhamento aqueles arames, que estão escuros, tomados pela ferrugem, e então vejo, abaixo da maior das cicatrizes e já permanentemente ali, a marca do líquido que escorrera do arame, líquido resultante da ferrugem, líquido denso: uma lágrima.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Se vai ou esvai?

Lá vem ela, ao longe, deixando seu rastro brilhante, brilhante como os sonhos que deve ter consigo, em seu íntimo, ínfimo segredo, vagarosamente, segue. Outrora, parece não ter nada em mente, gosma andarilha, segue em frente, acima, para o lado, silenciosamente. Passaria despercebida se não fosse seu rastro. Rastro de lesma! Seria isso negativo? Quantas sensações estão por trás da percepção de um rastro de lesma?
Ela se aproxima, indiferente às reações que provoca, segue devagar, a lesma. Não causa queimaduras como o bicho-cabeludo, que é, por isso, por muitos, maldito; não se transforma como a lagarta, que vira borboleta e é, por isso, admirada; só segue, não machuca, mas também não embeleza, pode ser nojenta, mas, até onde sei, não faz mal a ninguém. Ah, deixa rastro! E esse rastro, apesar de brilhante (e exatamente por ser brilhante, perceptível), não é benquisto. Quem na vida não deixa rastro? O ladrão que comete o crime perfeito? O fugitivo nunca mais encontrado? Hein!? Quem não o deixa? Quem não tem uma história? Feia ou bonita?
A lesma continua vagando, ignorando as ideias que suscita. Então a dona da casa, que vive na correria, percebe a lesma, que a ultrapassa. A mulher corre até a cozinha, pega o sal e, não por mal, mais por capricho, joga uma pitada na lesma, duas, três, a lesma se retorce. Será que coça? Será que queima? Será que doi? É agoniante um bicho agonizante. A lesma derrete. Talvez, se não tivesse se exposto, estaria viva, mas está morta. A caprichosa, com a pá de lixo, tira a lesma de seu chão, limpa o rastro e segue em seus afazeres domésticos sem pensar na vida que tirou, sem refletir sobre a natureza maquiavélica de sua atitude. Eis um ser que deixou de brilhar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Conto Curioso

Há muitos e muitos anos, numa terra distante, havia um vilarejo esquecido, com alguns mistérios adormecidos e muitas histórias não contadas. Por lá, poucos forasteiros passavam; não fazia parte da rota de mercado, estava mais para rota de fuga – nem sempre foi assim. Entre os habitantes desse lugar remoto, havia dois irmãos queridos por seus conterrâneos, dois jovens que tornavam a vida naquele lugar mais animada e agradável. Ambos eram filhos dedicados, que ajudavam seu pai nos afazeres do campo, irmãos abnegados, que estavam sempre dispostos a cuidar dos menores, protegê-los. Nessa família, havia, ao total, cinco filhos, os dois mais velhos, uma menina – a do meio –, um que tardiamente iniciava a falar, outro que ainda era de colo – um bebê. Assim, esses menores estavam sempre com a mãe. E a filha, Dora, a qual fazia questão de ajudar a cuidá-los, contribuía com a mãe nos afazeres domésticos.
Cris era o irmão extrovertido, dinâmico. Sabia sempre de tudo sobre todos. À época da morte do avô materno, já há algum tempo, Cris fora sozinho e escondido à casa do falecido. Enquanto todos se preocupavam em providenciar o velório, ele inspecionava cada canto da casa. Abriu cada porta, levantou cada colchão. No quarto do avô, ao abrir uma das portas do roupeiro, encontrou um baú. Dentro do baú, encontrou uma capa. Nunca a tinha visto, sobre ela seu avô nunca havia falado: era uma capa secreta. Cris olhou entusiasmado para aquilo e, desconfiado, se perguntava: “por que vovô a guarda tão bem? para que a usa?”. Foi até o espelho para ver como ficaria com a tal capa. Assustou-se. Espantadamente se deu conta: sumira. Aquela era uma capa de invisibilidade. Levou-a embora. O que ele demoraria a saber é que sua avó dera falta da capa.
Rui era o irmão introvertido, distraído. Seus pensamentos eram sempre distantes. Mas ele escrevia bons textos e as pessoas da vila gostavam muito de lê-los. Rui considerava sua vida sem graça, esse era o motivo de ele sempre imaginar estar em outros lugares e escrevia sobre isso. Por vezes ele andava em reinos distantes, salvando donzelas indefesas de bruxas malévolas; outras vezes era o cavaleiro destemido que acabava com o inimigo mais forte em batalhas sangrentas, recebendo a aprovação de todos, tornando-se o mais admirado pelo rei.  Mas, ultimamente, ele não tinha vontade de escrever, não conseguia sair de seu mundo, do qual ele não gostava, não conseguia imaginar algo que lhe fizesse bem; seus dragões estavam mortos, todas as princesas tinham envelhecido. O único lugar em que Rui imaginava estar era num buraco negro bem fundo, num desfiladeiro sem fim, onde ele caía e caía e se perdia para sempre. Ele não queria escrever sobre isso, ele não queria escrever sobre nada. Ele queria ir embora e nunca mais voltar.
Quando Cris percebeu a tristeza de seu irmão, sabendo que Rui gostava de uma aventura, como ele, resolveu convidá-lo a espionar um morador da vila – Cris acreditava que com a capa de invisibilidade eles estariam seguros. Esse morador vivia recluso, solitário, e era sempre motivo de conversa entre os habitantes do local. A esperança de Cris era de que Rui se empolgasse com o prazer que só uma façanha inesperada pode proporcionar, e voltasse a escrever. Rui aceitou a proposta, se animou com o perigo – “por sorte o homem misterioso teria algum segredo que fizesse valer a pena arriscar”. Não acreditou quando vira a capa de invisibilidade e reclamou a Cris por não ter lhe falado sobre ela antes.
Escondidos embaixo da capa, tarde da noite, enquanto todos dormiam, foram à casa do enigmático vizinho. A porta não estava trancada, por isso entraram facilmente. Passaram pela cozinha e seguiram pela sala: procuravam algo diferente, algo que pudesse comprovar que aquele homem acabara naquela vila para fugir de uma realidade que ele não contara para ninguém porque a queria esquecer, que ele tinha algum segredo a esconder, comprovando a desconfiança de todos – quem sabe um assassino sanguinário, um ladrão ordinário? “Ao certo um falsário”. A sala dava para um corredor extenso cheio de portas, as quais os irmãos acreditavam serem dos quartos. Caminharam lenta e cuidadosamente por esse corredor, todas as portas estavam fechadas e eles não as abriam porque uma daquelas ao certo era a porta do quarto do homem, não queriam acordá-lo. No final do corredor, na extremidade oposta à sala, havia uma porta entreaberta e foi para lá que eles se dirigiram. Espiaram para certificar se o dono da casa não estava ali, como não havia ninguém, entraram. Não acreditaram no que viram: vidros de todos os tamanhos com líquidos de variadas cores e procedências, conhecidos ingredientes de poções mágicas: lágrima de sereia, pó de chifre de unicórnio, coração de dragão desidratado e outros. Esse homem era um bruxo! E, pela quantidade de material de magia que ele tinha (alguns muito difíceis de se conseguir, raríssimos), pode-se afirmar: um bruxo muito poderoso! Observaram cada detalhe, exploraram bem o ambiente. Empolgados com a descoberta sobre o vizinho e com a quantidade de coisas que eles sequer haviam imaginado ter nas mãos, descuidaram-se da presença do homem ali na casa – queriam ver tudo, ler cada receita, saber cada antídoto. Cris, deixou a capa de invisibilidade com Rui e começou a caminhar livremente naquele aposento, analisando tudo o quanto podia. Ao encontrar um ingrediente que sempre duvidou existir, deu um grito para Rui, que estava a certa distância, lendo um manual de encantamentos amorosos:
― Não acredito! Cinza de fênix! Você tem que ver isso!
Rui percebeu o tom alto da voz do irmão e se assustou, aquilo poderia ter acordado o bruxo. Assim que se deu conta disso, ouviu o ranger da porta do quarto ao lado, o homem estava a caminho. Cris estremeceu de pavor e deixou escapar de sua mão o vidro com as cinzas, que se espatifou no chão. Rui então correu até seu irmão e cobriu-os com a capa. No instante seguinte o homem estava ali, em frente a eles. Se não fosse a capa, teriam sido certamente flagrados. O bruxo não os via, mas sentia que havia algo errado. Olhava para todos os lados desconfiadamente, até que viu as cinzas de fênix espalhadas no chão. Agora tinha certeza, alguém esteve ali, alguém sabia seu segredo. Os dois irmãos, apavorados, esperaram o homem sair dali. Acreditaram que ele havia voltado para seu quarto e foram embora, apreensivos. O bruxo que, diferente do que eles pensavam, não voltara a dormir, observava, escondido, as pegadas que se faziam na relva enquanto os irmãos afastavam-se. O bruxo os seguiu sorrateiramente até descobrir, por fim, quem estivera em sua casa. Naquela mesma noite sequestrou Dora. Sabia do carinho que os dois tinham pela menina, sabia que através dela os atrairia para onde desejasse, sabia que eles não arriscariam a vida da irmã, que seriam discretos para evitar que qualquer mal acontecesse a ela, que não comentariam com ninguém o que ocorrera, nem seus anseios. Então ele poderia acabar com esses bisbilhoteiros sem levantar suspeitas. Vingar-se. Levou Dora para sua casa. Tinha certeza de que os meninos saberiam onde procurá-la quando dessem sua falta.
Amanheceu e, como de costume, a mãe foi para a cozinha preparar o café da manhã para a família. O pai se levantou, passou no quarto dos filhos maiores para acordá-los, pois os três seguiriam para a lavoura, e, quando se dirigiu para o quarto dos menores, não vendo Dora, voltou-se calmamente para a mulher, perguntando da menina. A mulher, assustada, deixou seus afazeres e seguiu à procura da filha dentro de casa. Já estava desesperada, gritando pela filha: “Dora! Dora! Meu Deus, onde essa menina se meteu?”. Foi então que os dois irmãos se olharam, olhar aterrorizado, corpo paralisado. Naquele momento, ambos entenderam-se perfeitamente sem dizer uma palavra: “Só há um lugar onde Dora pode estar e só nós podemos resolver”. Não queriam contar os fatos a seus pais. Não queriam que eles também corressem perigo, como Dora, por causa de sua atitude. Eles conversariam com o bruxo, pediriam desculpas, prometeriam manter segredo; ele haveria de perdoá-los.
Para ganhar tempo, Cris e Rui disseram aos pais que Dora havia falado, no dia anterior, que acordaria bem cedo para colher flores no campo e que com certeza ela estaria bem. Os pais ficaram mais calmos após as palavras dos filhos. Estes tomaram café rapidamente e saíram, dizendo que buscariam a irmã e que em breve estariam em casa. Os dois não sabiam, mas, desde que Cris pegara a capa de invisibilidade na casa da avó, ela os vigiava. Sabia que eles tinham sob seu poder algo muito importante e que isso poderia colocá-los em perigo. Os avós dos meninos eram magos poderosos, que, na hierarquia local, tinham posição de destaque, exercendo influência sob os seres da floresta. Na floresta, havia muitos seres mágicos e uma série deles ajudava a mulher a vigiar seus netos, principalmente as fadinhas vagalume: pequenos seres que brilhavam a noite, mas eram imperceptíveis durante o dia.
Essas fadinhas sabiam de tudo que ocorria, não interagiam com os moradores do vilarejo, mas os observavam e levavam todas as informações para a Maga, responsável por cuidar dos seres que ali habitavam, do vilarejo ou não. A Maga sabia do Bruxo e o mantinha sob vigilância extrema. Desde a morte de seu marido ela esperava o momento certo para sua vingança. O Bruxo a menosprezava, não acreditava em seus poderes, considerava que a morte de seu marido fosse o suficiente para amedrontá-la e torná-la submissa; e ela permitia que ele pensasse assim. Na verdade, ela fazia de tudo para que ele a achasse fraca; mas ela estava juntando forças para combatê-lo. Alguns seres da floresta haviam se deixado subjugar pelos poderes do Bruxo; entretanto, a maioria se preparava para a revanche da Maga. Ela soube do que acontecia durante todo o tempo: sabia dos planos do Bruxo de dominar o vilarejo, sabia quando Cris e Rui foram à casa do homem, sabia o que se passava com Dora naquele exato momento. Porém, antes de qualquer atitude, precisava analisar a situação, ponderar cada detalhe, pensar como agir, pois sabia que aquele Bruxo, que agia discretamente, era extremamente malévolo e poderia acabar com a vida, não só de Dora, mas de toda sua família.
Os irmãos haviam pensado melhor e traçado um plano. Deram-se conta de que o Bruxo não era uma pessoa em quem podiam confiar; era perigoso, escorregadio. Já na floresta, em direção à casa do malévolo, se cobriram com a capa de invisibilidade; o plano era tirar Dora da casa do Bruxo sem que ele percebesse e, quando ela estivesse em segurança, dar um fim nele. Na noite anterior, viram que ele tinha um veneno fortíssimo: suor de quimera, e iriam usar esse veneno para matá-lo. Entraram na casa, andaram por todos os cômodos, não viam nem o Bruxo nem Dora, havia alguma coisa errada. Na sala de poções, pegaram o suor de quimera e seguiram à procura da irmã. Foi então que a viram, no aposento particular do Bruxo, amordaçada. Ela estava transtornada, não sabia o que pensar, não entendia. Quando eles começaram a soltá-la, o Bruxo, inesperadamente, tirou a capa deles e colocou em si mesmo: agora eles estavam vulneráveis: no ambiente do outro, sem o ver. Ele faria o que bem entendesse, poderia sumir com os três e ninguém saberia. Soltaram Dora, não sabiam como se livrar do Bruxo, só pensavam em sair dali, mas não conseguiam: a cada porta, cada janela que eles se aproximavam: BOOOOM! – batia-se com força. O Bruxo as fechava sem ser visto, os estava torturando; para eles era o fim, não tinham o que fazer. A menina começou a chorar.
Então surgiu uma figura feminina na única porta que ainda não havia sido fechada. Era a Maga! Com um comando dela, a capa de invisibilidade, que sempre lhe pertencera, deixou o corpo do Bruxo. Cris, Rui e Dora não entendiam como sua avó, um ser tão frágil, de repente se mostrava tão forte. A Maga e o Bruxo iniciaram uma batalha mágica. Feitiços eram jogados de lá para cá e de cá para lá. A Avó-Maga estava quase sem forças, o Bruxo era muito forte. Rui, abraçado em Dora, a protegia para que nada daquilo a atingisse. Cris lembrou-se do suor de quimera que estava em seu bolso; havia lido todo o manual de envenenamento, sabia o que fazer. Jogou o vidro em direção à avó e disse a ela:
― Suor de quimera! Sabe o que fazer?
― Com toda certeza sei!
O olhar do bruxo era de surpresa e desespero. A ponta da varinha da Maga quebrou o vidro do suor de quimera, absorvendo o ingrediente. Imediatamente ela lançou um feitiço mortal no Bruxo. Ele evaporou, morreu.  Acabara aquele pesadelo. A morte do Avô-Marido-Mago havia sido vingada. Dora estava a salvo, os meninos estavam bem. Seres mágicos da floresta aglomeravam-se em frente ao local. Todos queriam ver o Bruxo morto, todos queriam certificar sua derrota. A Maga, indiscutivelmente, era a autoridade máxima. E, naquele instante, tomada de muita emoção, ela disse:
― Não usem seus poderes para seu bel prazer, não usem suas forças em benefício próprio, há algo muito maior. Há muitas forças nesse mundo, nem sempre positivas; cabe a nós optarmos. Quando soube que vocês usaram a capa de invisibilidade para bisbilhotar a vida do Bruxo, me preocupei. Vocês se arriscaram em vão, correram grande perigo sem necessidade. Agora sei que seus corações são bons, mas sofri pela dúvida. Vocês têm muito para dar a esse mundo, mas precisam ter consciência de seus atos e refletir sobre suas decisões.  
Os irmãos ouviram atentamente, se comprometeram a manter os últimos fatos em segredo e a analisar melhor seus atos antes de tomar qualquer atitude; a irmã fez parte disso. Retornaram para casa. Rui nunca mais quis ir embora, era de uma linhagem de magos muito poderosa e por isso encheu sua alma de inspiração. O vilarejo, que tinha a negatividade predominando sobre ele por causa de feitiço lançado pelo bruxo, viu-se livre disso com a morte de quem o lançou e voltou a ser movimentado; todos os comerciantes queriam passar por ali; o lugar voltou a fazer parte da rota de comércio. A paz e a alegria voltaram a dominar. Todos viveram felizes para sempre.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Altos & Baixos

Alguma coisa acontece no universo solidão:
estrela cadente, partículas de desejo
raios incandescentes

Sunrise

Alguma coisa acontece no infinito paixão:
buraco negro, ondas de desencanto
meteoritos perdidos

Sunset

O sol volta a nascer
no infinito finito
sem saber







sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pés sem chão ou chão sem chinelos



Era um fim de tarde chuvoso. Uma tarde de sábado fria. O outono havia começado a dar caras de inverno. As pessoas voltavam a sentir aquele gosto - gostoso - de permanecer em suas casas quentinhas.
Estava no supermercado. Ainda no estacionamento se dera conta de que o lugar estava lotado. Tráfico intenso de veículos. Um esperando o outro sair para aproveitar a vaga. Não querendo ficar distante da porta, não querendo se molhar, esperou no interior de seu carro o melhor lugar que pudera arrumar. Conseguiu. Estacionara, saíra. Foi às compras.
Entrara no mercado olhando para os lados. Não via nenhum jovem, ninguém sozinho, nenhum pretendente a namorado. Distraída, pensava o que mais quereria, o que mais precisaria. Não costumava fazer as compras da casa. Não tinha essa responsabilidade. Ia ao mercado quando tinha vontades supérfluas, caprichos. Fora isso, estava acostumada a abrir os armários e encontrar o que precisava. Primeiro corredor. Dobra a esquina em direção ao centro do mercado. Lá fica a padaria: pães quentes, cucas frescas, manteigas derretidas. O fluxo de gente é pra lá. Estando lá, iniciaria sua pesquisa, sua análise, suas escolhas. Olha e vê, seguindo o mesmo fluxo, pouco à frente, um homem. Um velho. Um homem velho. Devia ter uns sessenta anos. Setenta. Comparando a seu pai... Estranho. Não considera seu pai um velho. Mas esse homem lhe parece velho. É provável que seja um homem velho. Um homem cujos anos passados foram difíceis.
Grisalho, com certa careca, lhe restava pouco cabelo - nas beiradas. No contorno da cabeça ele tinha cabelo, e era comprido. Nem tão comprido. Não batia no ombro, era um pouco mais curto. Não estava limpo, era oleoso e sem corte. Mas penteado. A roupa era limpa. Gasta, desbotada, velha - mas limpa. Era de se espantar, ao menos de se fazer pensar, que aquele homem com tantos paradoxos era ao mesmo tempo tão simples. Ela segue olhando. Olha os pés. O velho homem estava de chinelo. Chinelo de dedo, de borracha, estilo havaianas; mas não era havaianas  - não era de marca. Ele não poderia comprar chinelos de marca. Com aquele tempo, aquele frio, aquele velho de chinelo de dedo no mercado... Olha com mais atenção, já com pena daquele moribundo, e não pode acreditar no que vê. O chinelo do homem não era velho, era pior; era gasto. As solas de ambos os pés do chinelo eram gastas para dentro. E, ao observar ainda melhor, quando o pobre velho dera um passo à frente, vê o que não acredita ver. O chinelo não era só barato, não era só velho, não era só gasto. Não! Era furado. Não um furo feito num momento, por algum descuido qualquer ou acidente. Era um furo feito pela ação do tempo. O calcanhar do pé esquerdo do chinelo do velho não existia. De tão gasto, havia um rombo. A sola do calcanhar do próprio pé do velho estava fazendo as vezes de chinelo. O homem não era só velho, era gasto!
Desnorteada. Perde-se por alguns segundos. Nunca, em hipótese alguma, pensara passar por isso. Nunca imaginara ver tal cena nesse que é o melhor mercado de sua cidade. Num mercado de subúrbio? Talvez. Mas nesse nunca! Pensa em sair. É a única opção que lhe ocorre. Sai com a cesta. Optara pela cesta, ao invés do carrinho, pois não faria grandes compras, só alguns itens para tornar sua noite solitária menos azeda; procurava melhores sabores, talvez mais adocicados ou inebriantes. Chega ao estacionamento com a cesta na mão. Sente-se ridícula. Volta. Quer seu celular, contar a alguém a triste cena que vira. Onde está seu celular? Precisa dividir esse momento. Não resistiria a isso sem contar a alguém. O celular! Procura em vão nos bolsos da calça, do casaco, na bolsa. Resolve ir até o carro procurá-lo. Devolve a cesta na pilha de cestas dentro do mercado. Vai ao carro, abre a porta, procura. Não encontra o celular. Retorna.
Mais calma, pega novamente uma cesta e dirigi-se à fila da padaria. Mesmo após as idas e vindas ao estacionamento, ficara logo depois do velho homem. Na frente dele, ali parado o tempo todo, ela vê um colega de infância, adolescência talvez. Não têm intimidade para iniciar uma conversa. Ambos sabem conhecer-se. Olham-se disfarçadamente. Sabe que ele a vira anteriormente, perturbada, estática. Deve tê-la visto hesitando. O que pensaria sobre ela? Sobre a atitude que ela teve. Ou não teve. Sobre ter ficado parada sem saber aonde ir. Teria percebido do que se tratava? Isso não tinha mais a mínima importância. Observa novamente o pobre velho, ali à sua frente, tão perto. Entrava frio pela careca e pela sola dele. Pela cabeça e pelo pé. Uma vez falaram a ela que o frio entra no corpo principalmente pelas extremidades: mão, pé, orelha, nariz ficam mais expostos ao frio; disseram que a baixa temperatura causa uma constrição maior dos vasos sanguíneos e a quantidade de sangue diminui muito nessas regiões que acabam mais gelados no inverno. O pobre gasto deve estar todo gelado. Deve estar sentindo um frio extremo.
Pensa em abordar o homem. Perguntar onde ele mora. Se poderia mais tarde lhe levar um chinelo novo. Um sapato fechado. Veria o que seria possível arranjar com seu pai. Então considera que perguntar o endereço seria muito invasivo. Melhor seria oferecer-se para comprar-lhe, ali mesmo, um calçado. Mas que direito tinha ela de abordá-lo? Uma estranha! Como ele reagiria? O que lhe diria? Queria ele piedade? Ou se irritaria? Quem sabe ele se ofenderia? Nem todos são dóceis. Nem todos esperam ajuda. Por que está esse homem nessa situação? Uma vez seu pai lhe disse que quem passa trabalho na velhice não trabalhou o suficiente quando novo. Não há ninguém para ajudá-lo? Um parente? Um vizinho? Que tipo de pessoa ele deve ter sido? Será que era ruim? Será que merece sua preocupação? Será que merece essa privação? Ou será que agora está em melhor situação? Afinal, faz compras no melhor mercado da cidade! Como não o proibiram de entrar lá? Por que aquele chinelo sem calcanhar? Não pode alguém escolher usar algo assim! Tem de ser por necessidade! A única explicação é não ter outra opção! Mas como encará-lo? Como aproximar-se? E, depois, como propor-lhe? A dúvida a corroi.
Imagina inúmeras vezes esse contato. Como quem encontra motivo para iniciar a conversa, inclina o corpo para fazê-lo. Inicia um gesto, levantando a mão, esticando o braço. Ensaia alguma fala. Retrai-se. Deixa a cesta ali mesmo e vai embora.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Batida

Meu coração não bate.
Ele quica.
Qui-ca-lor!
Quando penso em nós dois
O ardor me abate.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Curiosidade de mim

Não é fácil se definir. Na verdade, sou contra definições. Acredito que nossa personalidade está sempre em processo, que estamos em constante mutação. Sem dúvida alguma, essa opinião está enraizada em mim, faz parte de minha essência; me persegue mesmo quando desejo me enquadrar, mesmo quando desejo me entregar. Há algo em mim que não me deixa parar, não me deixa descansar, me leva sempre a buscar, buscar, buscar... às vezes não sei o quê.

Posso me descrever assim: sou alguém a procurar. Busco o desconhecido, busco o novo, busco o desafio, busco o que me completa. Sim, me sinto incompleta. Não sei se um dia completa serei. Por vezes, acho a plenitude fugaz e ilusória. Na maior parte do tempo, considero que ser incompleto é o que realmente nos torna reais. Faz ir além.

Tive uma criação tradicional: aprender coisas de mulher, pensar coisas de mulher, fazer coisas de mulher - ser mulher. Mas minha natureza é inquieta: eu queria aprender coisas de homem, pensar coisas de homem, fazer coisas de homem - ser mulher. Eu queria mais do que a sociedade machista patriarcal reservava para mim, eu queria mais do que a sociedade capitalista me designava. Eu queria ser um ser: pensante, ativo - eu queria ser um sujeito. E esse sujeito me tornei. Desfiz amarras na família, entre amigos: incompreendida me fiz. Compreendida de mim. Satisfeita de mim. Me fiz.

Que meu espírito revolucionário tenha feito parte disso: sim! Que minha curiosidade tenha grande parte nisso: sem dúvida! A verdade é que, dentre quatro filhas mulheres, eu, a caçula, fui a que mais portas abri, a que caminhos mais incertos percorri, a que mais tortuosidades venci! E assim até agora vivi!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Avesso

Ser
a espera
de um arroubo
de emoções
- Pareço.

Ser
em busca
de novas
percepções
- Permaneço.

Ser
que propaga
diferentes
dimensões
- Pereço.

Querer

Gosto das coisas simples
Chimarrão, bate-papo

Gosto do sorriso amigo
Do abraço apertado

Gosto de observar a paisagem
De caminhar sem pressa

Gosto do livro amarelado
Da música não-comercial

Gosto de dinheiro
Mas, não o venero

Venero o tempo
E o quero

domingo, 8 de abril de 2012

Misunderstanding

No - Don't tell!
I can see!
Behind your eyes
I can see.
You're still here
With me.

sábado, 10 de março de 2012

Viva e não espere nada

Sêneca já dizia que a expectativa criada e não correspondida contribui para a frustração e logo para a raiva sentida nessa situação.
Então, não crie expectativas!
Alguém lerá seu pensamento para adivinhar o que você deseja!? Alguém estará preocupado em fazer o que você quer!?
E ninguém terá culpa por isso.
Problema seu que criou expectativas!
Eu, por exemplo, viverei o final de semana sem expectativa nenhuma.
E tenho certeza que esse será o melhor!