quinta-feira, 14 de junho de 2012

Será que chora? Será que sente?

Uma entre quatro esculturas de barro chama minha atenção pela forma. Irregular, como as outras, tem sentido obviamente abstrato e se destaca a partir do momento em que, de determinado ângulo, vejo nela um corpo humano, corpo de mulher foi a primeira impressão, para dizer a verdade. Isso porque são das mulheres que se espera, pelo modelo estético dominante, aquela protuberância traseira que é evidente no objeto de barro observado. Bunda um tanto quanto empinada, até grande, pode se dizer, assim como as coxas, a base da escultura - enormes!

É impressionante a visão em relação à suposta coluna, pois havia aquela imensa bunda e, então, ao contornar uma acentuada curva, estava ali, na vertical, a reta, onde vi coluna. Sigo a reta e chego ao topo, a cabeça se faz mínima, parece, inclusive, a metade, pois há um corte brutal que a deixa reta e inacabada; além de metade, ela é mínima, quase nada - pois, nessa escultura de barro, o topo, que eu chamo cabeça, não chega a ter um décimo da circunferência do que eu disse bunda.

Esta escultura lembra-me do famoso quadro da Tarsila Amaral, cujo nome não lembro agora, que retrata uma mulher com o corpo enorme e a cabeça pequena. Será que quem fez a escultura pensava nessa obra? Será que tinha a intenção de fazer a mesma crítica? Será que realmente Tarsila Amaral fazia essa crítica? Tem mais, ao olhar por cima da escultura, vejo a cabeça oca. Além de metade, além de mínima, é oca!

Sigo a perceber a escultura, mudo novamente meu ângulo e vejo o que, em minha comparação, chamaria de braços; a escultura apresenta braços largos, não tão largos quanto os quadris, mas mais largos do que a cabeça - essa mulher que vejo exerce algum poder com seus braços, não é seu ponto forte, se comparados aos quadris, mas nem tão fraco quanto a cabeça. Porém, apesar de largos, são curtos, o que retrata o curto alcance desse poder.

Ando um pouco para o lado e tenho uma nova perspectiva da escultura: arames foram usados para fechar fendas que haviam nesse barro, como os pontos no hospital são usados para fechar nossos cortes - remendos. Analiso com certo estranhamento aqueles arames, que estão escuros, tomados pela ferrugem, e então vejo, abaixo da maior das cicatrizes e já permanentemente ali, a marca do líquido que escorrera do arame, líquido resultante da ferrugem, líquido denso: uma lágrima.

2 comentários:

Leandro Coimbra disse...

Anda bom teu blog...

Karina Santana disse...

thanks! apareça sempre q puder!