quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sirenar interno

Na aula, sábado, em meio a leitura de crônicas de variados autores, que iam de Rubem Braga a Martha Medeiros, já passado o momento em que eram explicados conceitos como deboche e ironia, estava eu ali um pouco menos interessada. Meus pensamentos oscilavam entre os textos lidos e os planos para a tarde de sábado, depois da aula, cuidando para disfarçar meu distanciamento. Então, escuto, ao longe, uma sirene, não sei se de ambulância ou de polícia, e nesse exato instante, saio completamente dali.
Sirene, pra mim, sempre foi sinônimo de metrópole. Eu assistia a filmes e seriados ambientados em importantes cidades, como Paris ou Nova Iorque, e me dava conta de que as sirenes eram um efeito usado, muitas vezes, para marcar essa característica, dar o ar metropolitano. Uma metrópole me remete a grandes sensações, multidões, muitos "ões". Mas, eu estava ali, sozinha, perdidinha, em meus pensamentos. O que acontece lá fora? Será que houve um acidente? Será que há alguém ferido? Será que morto? Ou algum crime foi desvendado? Alguém foi preso? Encurralado? Terá reféns? Quanta coisa acontece que eu não sei!
Eu poderia pensar: não me diz respeito! não me interessa! A questão é que a gente fala isso pra muita coisa que nos diz respeito sim! O problema é que estamos tão ocupados cuidando de nossas obrigações, de nossos interesses, que não temos tempo pra pensar no que tange ao coletivo. Cada vez mais estamos entregues ao individualismo das grandes metrópoles, onde, mesmo cercado de gente, ficamos sozinhos, com nossas próprias demandas e nossas próprias desculpas. Cada um constroi suas verdades, conforme lhe é aprazível, e as vive. Melhor se não houver ninguém para questioná-las, melhor que ninguém as destrua. E, o pior, esse individualismo é externo, pois é superficial, uma falsa sensação de autossuficiência.
Nos momentos em que sou tomada por esses pensamentos, desejo ir para o interior. Lá as pessoas são mais próximas, todos se conhecem, todos se cumprimentam, ninguém passa por dificuldades sem compartilhá-las com os demais, que o ajudam. No interior não há sirenes, não penso se há ambulâncias buscando ou trazendo moribundos, se há alguém sob cárcere privado ou se dirigindo para cárcere público. Lá as dores são divididas e diminuídas, as alegrias, somadas e multiplicadas. No interior, não somos indivíduos, somos sujeitos. No interior de nós mesmos, podemos ser como quisermos, mas é importante não permitirmos que esse interior seja um fim em si mesmo. O interior tem que externar na metrópole, enchê-la de indagações. Esse interior não pode ser fechado, deve ser desbravador. Um interior coletivo, que nos leve para a rua ao toque da sirene ao invés de fechar as janelas para não ouvi-la.
Naquele sábado a aula acabou mais cedo, eu, que continuava ali sentada, preparei-me para ir embora, e, na cabeça, um pensamento: unidade transcendental.

Um comentário:

Carla Soares disse...

Assim como não sabemos o que ocorre no exterior quando a sirene soa, no interior o desconhecido também existe e intriga. Mas destas sirenes não podemos nos esconder por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, vamos ao encontro delas todas. É quando melhor nos compreendemos intimamente. É quando deixamos de ser um refém.

Ótima crônica, amiga.
Beijo!